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São José - "Com coração de Pai"

Irmão Deivid Ferreira, PSDP 

Em comemoração ao aniversário de 150 anos da proclamação de São José como patrono da Igreja, realizado pelo Papa Pio IX, o Papa Francisco, no último dia 8 de dezembro, convocou o “Ano de São José”. Esta é uma grande oportunidade para o povo cristão estreitar os laços com este glorioso santo. Não somente isso, mas de descobrir a mensagem que Deus transmite ao mundo com o exemplo deste grande homem, e como a vida dele nos motiva a sermos santos. Refletiremos, sobre o mistério, e não poder-se-ia usar outra palavra, que é a vida de São José: Esposo de Maria, pai de Jesus e Patrono da Igreja Católica.

ESPOSO

“Celebre a José a corte celeste, prossiga o louvor o povo cristão: Só ele merece à Virgem se unir em casta união.” Assim começa o hino das Vésperas no dia 19 de março: “Só ele merece...”, que tamanho merecimento! Poder chamar a Santíssima Virgem, a Imaculada Conceição de “Minha Esposa”, e ser chamado de volta “Meu Esposo”. Depois de Jesus Cristo este é o homem mais próximo da nossa Mãe Castíssima.

Deus Pai, em sua Divina Providência, que gera e governa a criação, querendo enviar seu Filho ao mundo pensou com carinho sobre quem Jesus chamaria de Pai e Mãe nesta terra; Por isso tratou de constituir uma família para seu precioso Filho, e é neste grande plano de Deus que se encaixa a pessoa de São José.

José casar com Maria não foi algo acidental ou um fato ocorrido simplesmente por influência cultural da época. O Anjo diz: “não temas receber Maria, tua esposa” (Mt 1,20); essa passagem demonstra que o matrimônio de José não foi um mero acaso. Esse termo empregado pelo Anjo “tua esposa”, nos faz contemplar o plano de Deus para com José: que ele seja Esposo da Virgem.

O glorioso José e a Virgem Maria viveram um matrimônio casto. Faltou-lhes algo em sua relação? Nada! Nem no que se refere ao matrimônio, nem na castidade. Faltou-lhes Amor? Jamais! Pelo contrário, diz São João Paulo II, “este amor foi maior do que aquele ‘homem justo’ poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.” (Redemptoris Custos, n. 19). Deus é Amor (1Jo 4,8), nesta família não faltou Deus, não faltou Amor. O contato singular que José teve a graça de estabelecer ainda na Terra com a Imaculada Conceição, deu-lhe a oportunidade de também participar da grandeza que Deus concedeu àquela que é a “cheia de graça” (Lc 1,28); como é próprio da “comunhão de bens” dentro de um casamento (cf. RC, n. 20). Não houve homem mais agraciado e feliz em seu matrimônio.

PAI

“Convívio divino a outros, somente após dura morte é dado gozar. Mas tu, já em vida, abraças a Deus, e o tens no teu lar!”, continua o hino na oração das vésperas. Falar da paternidade de São José é tratar de algo jamais visto em todo o mundo. Jesus assumiu a nossa humanidade em tudo, menos no pecado, e nesse “tudo” está a realidade familiar humana. São José foi assumido pelo Cristo como “Pai”, como parte do grandioso mistério da encarnação de Deus (cf. RC, n. 21). O glorioso José não foi pai de “mentirinha” do Cristo, pois em Jesus não habitou nada de falso. Foi por vontade de Deus Pai que assim foi feito e assumido por Jesus, pois nada na vida do Verbo esteve fora da Vontade do Eterno Pai.

A encarnação do Verbo de Deus foi o meio eficaz que Ele encontrou para salvar e santificar a humanidade. O contato físico com Jesus cura, santifica, salva... Foi isso que aconteceu com muitos, como relatam os evangelhos. Quantas pessoas foram curadas ao tocá-Lo? Estas diziam consigo: “Será bastante que eu toque o seu manto e ficarei curada.” (Mt 9,21). Quantas ao vê-Lo contemplaram a salvação? Foi o caso de Simeão (cf. Lc 2,29-32). Quantas ao simplesmente ouvirem sua voz foram curadas e até ressuscitaram? Como aconteceu com a filha de Jairo (cf. Mc 5,41-42). Os gestos, os toques, as palavras... a sua simples presença já são sinais de salvação. E não só quando Jesus já se encontrava adulto, muito antes disso sua presença santificava o ambiente e as pessoas à sua volta. Como foi na visita da Virgem Maria à Isabel. Ao perceber a chegada de sua prima, Isabel exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? Pois quando tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu ventre.” (Lc 1,42-44). Jesus ainda no ventre já era causa de efusão da graça, de alegria e louvor a Deus.

Falamos de todas essas coisas para pararmos por um instante e refletirmos sobre esta pergunta: se tudo isso aconteceu com essas pessoas por conta da presença do Filho de Deus, quais os frutos e graças alcançadas por São José nestes tantos anos que passou dividindo o mesmo teto com Jesus Cristo? E não só morando na mesma casa, mas tendo-O como filho, e Ele, tendo-lhe como pai? Não tocou-Lhe uma ou duas vezes, ou ouviu suas palavras uma ou duas vezes; “José não só viu, mas com Ele conviveu e com paterno afeto abraçou e beijou; e além disso, nutriu cuidadosamente Aquele que o povo fiel comeria como pão descido dos céus para conseguir a vida eterna.” (Quemadmodum Deus; Pio IX). Depois da Virgem Maria ninguém é mais íntimo de Nosso Senhor que São José.

A santidade é alcançada pelo contato constante e até ininterrupto da pessoa humana, corpo e alma, com a pessoa de Jesus Cristo. É neste ponto que São José e a Imaculada Conceição se diferenciam de todos os outros santos. Ninguém, além deles, tem tamanha intimidade com o Deus feito Homem. Esta relação era tamanha e tão graciosa que permitia o próprio Deus na pessoa de Jesus, ser submisso, obediente a São José (cf. Lc 2,51). Imaginemos o que isso representava para este simples homem. Ele sabia quem era Jesus, o Filho de Deus, sabia disso desde sua gestação no seio da Virgem Maria (cf. Mt 1,20-21). Jesus, Deus encarnado, lhe tratava com o devido respeito, como de um filho para com seu pai. Quanta humildade é necessária para essa alma conviver com tudo isso?

PATRONO DA IGREJA

O evangelho de Mateus apresenta nos seus dois primeiros capítulos três sonhos que São José teve. Todos eles carregando uma mensagem de Deus, transmitindo Sua vontade a José. No primeiro o Anjo lhe diz de não temer e receber Maria como esposa, e junto com ela assumir a criança como seu Filho, dando-lhe o nome de Jesus, tarefa do pai naquela cultura (cf. Mt 1,20-25). O segundo ordena José a tomar sua família e fugir para o Egito (cf. Mt 2,13-15). O terceiro é o chamado para que a Sagrada Família retorne à terra de Israel (cf. Mt 2,19-21).

Em todos episódios São José faz a mesma coisa: levanta-se de seu sono e cumpre o que Deus lhe ordenou por meio de seu Anjo. Sem nenhuma palavra, somente atos de obediência. Destaca-se a sua prontidão em realizar a vontade de Deus; pouco importava se era no meio da noite, se ele estava cansado ou tinha feito planos para o outro dia; ele levantava-se e obedecia. Parece que Jesus aprendeu isso de seu pai: “Ao longo da vida oculta em Nazaré, na escola de José, Ele aprendeu a fazer a vontade do Pai. Tal vontade torna-se o seu alimento diário (cf. Jo 4,34). Mesmo no momento mais difícil da sua vida, vivido no Getsémani, preferiu que se cumprisse a vontade do Pai, e não a sua, fazendo-Se ‘obediente até à morte (…) de cruz’ (Fl 2,8).” (Patris Corde, n. 3).

“O Senhor e Deus do mundo, Rei dos reis, a cujo aceno os infernos estremecem, revestindo a nossa carne, fez-se a ti obediente.”, assim canta o hino da oração das Laudes do dia 19 de março. Jesus foi submisso a São José; e por que assim se “acostumou” a atender seu pai na terra, não perdeu este humilde costume no céu. É como nos diz São Bernadino de Sena em um dos seus sermões “nada disso lhe negou no céu, mas antes, completou e aperfeiçoou”.

“Não me lembro até hoje de ter-lhe suplicado algo que ele não tenha feito. (...) Se a outros santos o Senhor parece ter concedido a graça de socorrer numa dada necessidade, a esse Santo glorioso, a minha experiência mostra que Deus permite socorrer em todas”[1] – descreve Santa Teresa d’Ávila na sua experiência com São José, Patrono da Igreja. Da mesma forma como São José socorreu, cuidou, alimentou e protegeu a Sagrada Família de Nazaré, ele continua protegendo a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que é o Corpo Místico de Jesus Cristo, seu filho. Roguemos então a São José, pedindo a graça de como ele, estarmos intimamente ligados ao Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Virgem Maria; não poderíamos experimentar algo melhor nesta vida e na outra, do que esta santificante companhia. São José, rogai por nós.

 

Aprofunde esta reflexão lendo os Documentos da Igreja:

Patris Corde - https://www.pobresservos.org.br/blog/120-igreja/1347-com-coracao-de-pai-papa-francisco-convoca-ano-de-sao-jose

Quemadmodum Deus - https://www.pobresservos.org.br/blog/120-igreja/1348-quemadmodum-deus-decreto-de-s-s-o-papa-pio-ix-proclamando-sao-jose-como-patrono-da-igreja

Redemptoris Custos - http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_15081989_redemptoris-custos.html

 

 

[1] D’ÁVILA, Teresa. Obras completas de Teresa de Jesus. São Paulo: Loyola, 1995. p. 78.

 

REVISTA A PONTE. ED. 2, 2021.