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Palavra do Casante: "O mundo precisa de pais"

Padre Miguel Tofful, Casante PSDP 

Tradução: Padre João Pilotti, PSDP 

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

Enquanto estava me preparando para escrever este artigo, encontrei-me na mesma situação de tantas pessoas que neste tempo contraíram o coronavírus. Os sintomas da doença me impediram de continuar a desenvolver as atividades normais, fazendo-me experimentar a fragilidade desta doença. Para mim, porém, foi uma ocasião para sentir-me solidário e próximo a quantos nesses anos de pandemia estão sofrendo por causa do Covid 19; mas é sobretudo uma oportunidade para reavivar a fé no Amor de Deus Pai, que jamais nos esquece e abandona.

Neste tempo de Quaresma, que vivemos a pouco, o nosso olhar se dirigiu para a cruz de Jesus e sobre a paixão de toda a humanidade, aquela cruz que Ele preencheu de Amor dando sentido e plenitude a toda realidade e situação, por quanto absurda possa parecer. Na cruz do Filho, Deus manifesta o seu amor de Pai, que não tarda a escutar o clamor do seu povo, e desce para libertar, sarar, transformar a morte em vida, a dor em salvação.

“O mundo precisa de pais”, precisa de “pais e mães”, de corações que saibam acolher, guardar, proteger e acompanhar o crescimento de toda a vida, como Deus o faz conosco. Dele deriva toda e qualquer paternidade sobre a terra. É Deus que plasma os nossos corações tornando-nos capazes de amar como Ele. Em Jesus, enquanto Filho, aprendemos a ser “filhos do Pai”, a viver relações autênticas e verdadeiras. Contemplando Jesus, aprendemos a conhecer o coração do Pai, a ter os mesmos sentimentos do Pai, a amar com o amor do Pai. A verdadeira paternidade nasce da contemplação do Amor do Pai que Jesus veio nos revelar.

Infelizmente a humanidade se afasta cada vez mais de Deus, mas Deus não se afasta de nós, não nos deixa órfãos... Ele continua a amar-nos porque é Pai. E nos convida a sermos profetas da sua paternidade, da sua Providência paterna. No seu amor fiel suscita hoje, assim como ontem, santos que testemunhem a beleza do seu Amor, da sua ternura.

O Papa Francisco, no 8 de dezembro passado, fez e instaurou o ano de São José por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como patrono da Igreja universal. Quis assim colocar em evidência a figura de São José, que Deus colocou como chefe da família de Nazaré no cuidado amoroso do Filho amado.

Patris corde – com o coração de Pai – é o título da carta apostólica do Papa Francisco. O texto coloca em foco a paternidade de São José à qual toda a paternidade deveria modelar-se, justamente neste tempo em que a mesma está em crise ou deformada. São José, o pai amado, pai na ternura, na obediência, no acolhimento; o pai trabalhador e da coragem criativa, o santo chamado a ser a sombra do único Pai celeste.

“Todos podem encontrar em São José, o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana, discreta e escondida, um intercessor, um sustentáculo e um guia nos momentos de dificuldade... São José nos lembra que todos aqueles que estão aparentemente escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo ímpar na história da salvação” (Patris corde). Neste tempo, em meio à crise que nos atinge, as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns, geralmente esquecidas. São aqueles que com a beleza de sua doação exercem uma paternidade e uma maternidade que salva a humanidade da solidão, da indiferença, do anonimato.

Contemplando a figura de São José gostaria de evidenciar algumas características que tornam luminosa qualquer paternidade:

  • Frente à missão que lhe foi confiada, José se sentiu pequeno, talvez não à altura daquilo que Deus lhe pedia. Sim, José experimentou o medo, mas soube confiar, abandonar-se à vontade de Deus que tudo pode. Deus pode agir através de nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. Exercitar hoje a paternidade com humildade e confiança em Deus nos permite superar todo o medo e preocupação, como nos ensina São José.
  • José é pai no acolhimento: com coração nobre acolhe Maria sem impor condições, sem pedir explicações, ele simplesmente a acolhe e acolhe o fruto do seu ventre.
  • José é pai trabalhador e obediente: Trabalha na sombra, sabendo ceder todo o protagonismo a Jesus e à sua mãe Maria. É a missão silenciosa fora dos refletores de qualquer verdadeira paternidade, que sabe assumir a tarefa confiada sem procurar a publicidade, o êxito mundano e muito menos o ser recompensado ou pago. Por isso Deus continua confiando os seus tesouros, os seus filhos, aos cuidados daqueles que sabem exercer a paternidade não como uma posse, mas como um “sinal” que remete a uma paternidade mais alta, como José: sombra do único Pai celeste, sombra que segue o Filho.

O mundo precisa de pais, mas rejeita os patrões, rejeita quem quer usar a posse do outro para preencher o próprio vazio; rejeita aqueles que confundem autoridade com autoritarismo, serviço com servilismo, confronto com opressão, caridade com assistencialismo, força com destruição.

Também São João Calábria foi escolhido por Deus para renovar no mundo a confiança no Amor paterno de Deus. Fiel a este chamado respondeu com a sua vida e as suas obras, tornando-se ele mesmo um “pai para todos”, especialmente para os mais pobres, para os órfãos. O carisma que dele herdamos nos impulsiona a tornarmo-nos pais e mães, que através do acolhimento, do cuidado e da ternura podem doar novamente ao mundo a beleza da mensagem evangélica da paternidade de Deus.

Peçamos a intercessão de São José e do nosso Fundador para que também nós sejamos para o mundo de hoje, especialmente para os mais pobres e abandonados, verdadeiros “pais e mães” que amam com o coração de Deus.

 

REVISTA A PONTE, ED. 2, 2021.