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A esperança (que resiste) em tempos difíceis...

Irmã Ioná Maria Santos da Silva, Pobre Serva da Divina Providência.

Gostaria muito que quando estas palavras fossem lidas, a realidade fosse outra e que já estivessem aliviadas as dores da humanidade. Este é o meu desejo que tem gosto de sonho, utopia… “resistência” (não de negação), baseada na certeza de que a história é conduzida e acompanhada pelas Mãos de um Pai cheio de amor.

Mas… e se não for assim como desejo? E se tivermos que conviver ainda por mais tempo com a pandemia?

Devo colocar isso também como possibilidade… e por isso é que o profeta Habacuc (que lhes convido a ler) me inspirou a escrever sobre a “esperança (que resiste) em tempos difíceis”. Porque Habacuc ao proclamar seu louvor, confiança e esperança no Senhor está muito consciente da realidade devastadora que se encontra o Reino de Judá.

Neste breve livro profético as primeiras palavras são marcadas pela impaciência de um lamento: "Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis? Até quando vos clamarei: ‘Violência!’, sem que venhais em socorro? Por que me mostrais o espetáculo da iniquidade, e contemplais vós mesmo essa desgraça? Só vejo diante de mim opressão e violência, nada mais que discórdias e contendas, porque a Lei se acha desacreditada, e não se vê mais a justiça; porque o ímpio cerca o justo, e a equidade encontra-se falseada." (Hab 1,2-4).

O profeta Habacuc aparece como expectador de uma situação de crise que lhe toca profundamente, porque toca a vida de seu povo. Na condição de Profeta ele é justamente chamado a olhar para esta realidade, a não nega-la e ser porta-voz de Deus.

A realidade que enfrenta o Profeta é muito distante, mas também muito próxima da nossa. Distante pelo tempo que nos separa, o contexto social, religioso e político, mas próxima porque, hoje também nós, nos deparamos com situações para as quais esperamos respostas e soluções que não temos, e assim, tantas vezes responsabilizamos Deus. Chega a parecer que o mal sempre tem vantagem. Este mal, atualmente, pode ser interpretado como sendo a pandemia, mas não só é a fome, a desigualdade, a violência, a corrupção, os mecanismos internacionais que trabalham “contra a vida” e a favor do lucro, o sofrimento de famílias, a falta de perspectiva para as novas gerações, o egoísmo e o individualismo “idolatrados” como forma de realização; e a lista poderia continuar…

Habacuc se encontra diante de uma crise no Reino de Judá: submissão ao Egito, injustiça, corrupção e depois ainda a invasão babilônica. Ele não consegue entender como tudo isto está acontecendo e dirige a Deus o seu “Por quê”? Dialoga com Deus e expressa o quanto espera d’Ele uma resposta que possa interferir imediatamente resolvendo tudo.

“Até quando? Por quê”?

O grito de desabafo de Habacuc ultrapassa os tempos e pode ser também o nosso diante da dor e do sofrimento sem explicações. Como é o das vítimas e famílias de quem foi contagiado pelo covid-19, de tantos que sofreram as complicações mais graves até a morte... também nós clamamos e pedimos uma resposta, uma cura e como o profeta perguntamos a Deus: “Até quando?”, “Por quê”?

Esta reação natural e legítima pode ser apenas o primeiro passo para encarar a realidade. Foi assim para Habacuc, pode ser também para nós. Este grito pode sair em forma de pranto, prece, pessimismo ou negação, entre tantas outras maneiras. A dor manifestada no grito merece todo o respeito. O grito precisa sair; ele é parte de um caminho que pode ser libertador.

Em Hab 2,1 vemos que o profeta resolve colocar-se em atitude de escuta àquilo que Deus lhe dirá em resposta ao seu lamento, ao seu grito e às suas perguntas.

Deus dialoga com Habacuc e a um certo ponto lhe diz: o justo viverá por sua fé”, ou em outra versão: “viverá por sua fidelidade” (Hab 2,4). Diante de tanta injustiça e infidelidade àquilo que era o Projeto de Yahweh para o seu povo é o justo quem poderá abrir as possiblidades de um futuro diferente no qual Deus pode agir através de quem o acolhe e permanece fiel ao Seu Projeto. O justo, aquele que permanece fiel, é capaz de olhar a realidade com “lentes” que veem mais longe e com mais profundidade. O “justo” sabe que não está sozinho e reconhece a presença e ação de Deus que nunca abandona, mas caminha passo a passo com ele.

Isto parece explicar os testemunhos de quem, em situações extremas da história pessoal, familiar, comunitária ou da humanidade, encontrou formas de reação e resistência que não só lhes permitiu “aguentar” as dificuldades, mas dar respostas criativas que geraram vida nova.

Silêncio, Reflexão, Escuta

Habacuc é capaz de silenciar e este é um passo sucessivo àquele do grito: o silêncio, uma pausa que permite refletir, escutar e assim poder entrever um novo horizonte, uma luz que desponta depois da noite escura. Ao ouvir esse tumulto, minhas entranhas comoveram-se; ao seu ruído meus lábios tremeram; a cárie penetra nos meus ossos, e meus passos vacilam debaixo de mim. Esperarei em silêncio o dia da aflição, que se há de levantar sobre o povo que nos oprime”. (Hab 3,16).

É impressionante ler os últimos versículos deste livro tão breve e tão intenso (Hab 3,16-19)! Aqui nos deparamos com o ponto de chegada de um caminho interior que partiu de um grito, entrou no silêncio meditativo até alcançar como que as notas de um canto novo. É o caminho do “grito ao canto”, segundo Pe. Angelo Brusco no seu artigo assim intitulado.

Os últimos versículos são palavras muito diferentes daquelas iniciais. Habacuc ainda não obteve respostas a todas as perguntas, nem viu passar todo o sofrimento, ao contrário, faz quase uma previsão muito negativa: “Porque a figueira não dará fruto, e não haverá frutos nas vinhas. Decepcionará os produtos da oliveira, e os campos não darão de comer, as ovelhas desaparecerão do aprisco e não haverá gado nos estábulos”.

Entretanto, a conclusão nos surpreende e nos convida a perseverar com “esperança nestes e em outros tempos difíceis:

“Eu porém me alegrarei em Yahweh, exultarei no Deus de minha salvação! Iahweh, meu Senhor, é a minha força…”.

 

Confira esse e outros artigos da Revista A PONTE no link: https://www.pobresservos.org.br/a-ponte