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Palavra do Casante: Pessoas novas para um Novo Tempo

Caríssimos irmãos e irmãs,

bom e abençoado ano novo para todos!

Abrimos as portas para o novo ano de 2021 com a esperança em nossos corações e os nossos olhos fixos no Senhor que caminha conosco, que não nos abandona e está presente no cotidiano da nossa vida.

O ano que concluímos foi marcado pela pandemia e outras grandes mudanças epocais que de maneira muito veloz nos levaram a habitar um novo tempo, uma nova época, um tempo mudado. Esta mudança de época nos conduzirá a uma nova era; e é exatamente este tempo que somos chamados a habitar e a evangelizar como família calabriana. Mas este novo tempo exige novas pessoas, renovadas. Dito com outras palavras: a possibilidade de vida nova, evangélica e profética serão verdadeiramente autênticas e concretas se existirem pessoas, leigos e consagrados, disponíveis a mudanças. Pessoas com uma sensibilidade suficiente para uma nova aurora que está chegando, para esse outro mundo que é possível e urgente.

Este é o tempo onde o Senhor faz nascer coisas novas; já as está fazendo emergir e germinar em nosso meio. É o próprio Deus, que por meio do profeta Isaías, nos faz luminoso anúncio na noite do exílio de Israel e da atual pandemia: “Eis que eu faço uma coisa nova: agora mesmo, vocês não percebem? ” (Is 43,19). A promessa de uma nova estrada no mar e no deserto anuncia a esperança que se torna luz no meio da escuridão das estradas fechadas e dos horizontes sem profundidade.

O novo ano, também se marcado pela pandemia, nos faz entrever um fio de esperança, esperançosos na vacina que começa a ser aplicada em diversos países. Para muitos significa ir ao encontro de uma solução da pandemia e a enxergam como a única esperança que têm para retomar uma guinada econômica e social no mundo. Estou particularmente convencido que não será a vacina, também se necessário e útil para superar a pandemia, que resolverá os problemas mais profundos da humanidade. Serão as novas pessoas, renovadas que serão capazes de habitar este novo tempo para poder morar nesta nova era que está desabrochando e que ainda não conseguimos ver com clareza.

É necessário saber perceber os sinais e os rastros de Deus no hoje da história. E os sinais de Deus nos convidam a caminhar rumo ao futuro, à novidade da vida e da história. O olhar de fé, de confiança e de abandono; a capacidade de discernimento e a certeza que Deus Pai está agindo plasmam em nós a certeza cristã e nos fazem intuir sobre como habitar este novo tempo. Padre Calábria nos ajuda com o seu olhar profético a compreender onde o Senhor quer nos conduzir para sermos estas pessoas novas, capazes de habitar um tempo e uma ordem nova: “Se fala de uma ‘ordem nova’, já vos falei, a verdadeira ordem nova não será feita pelos homens, o Senhor a fará, e o Senhor se servirá, não dos doutos, dos ricos, dos fortes, dos potentes, mas unicamente dos santos”[1].

Os tempos novos serão novos se habitados por pessoas novas que manifestam a sua novidade de vida através de um novo estilo de vida e de relações. A fé e a confiança em Deus Pai, vertente do nosso carisma, devem assumir o rosto da caridade concreta para com os mais pobres e necessitados. Certamente uma das características das “pessoas novas” será a capacidade de ser guarda dos seus irmãos e irmãs e de fazer-se próximo. Guardar e fazer-se próximo doando aos nossos irmãos e irmãs aquilo que temos de mais precioso: a nossa vida e o nosso tempo. Isto manifestaremos por meio da proximidade, da compaixão, do envolvimento, da atenção à pessoa e das relações.

O cuidar e o fazer-se próximo comportam também a disponibilidade do saber “mudar de programa” com facilidade, sem pôr resistências, isto é, ter a capacidade de deixar de lado os interesses pessoais, áreas de conforto e outras desculpas para aproximar-se e fazer-se próximo. Até não chegarmos a este ponto de amor e de gratuidade ao momento de saber ‘renunciar’ aos nossos interesses pessoais, quaisquer que sejam, não haverá qualidade de amor e de caridade autêntica de pessoas novas que habitam este tempo novo.

Empreender e viver um processo de renovação significa entrar no dinamismo do Espírito Santo que opera em nós uma ação de cura fazendo-nos passar de uma vida apagada e sem esperança para uma vida luminosa e cheia de entusiasmo, de uma “vida normal” a uma vida de radicalidade e profecia. Viver esta renovação significa construir a nossa Casa sobre a rocha da Palavra de Deus e não sobre a superficialidade, em outras palavras pessoas novas que sejam verdadeiramente Evangelhos Viventes. “Ou renovarmo-nos ou perecer.”

Somos chamados a viver este tempo novo de uma nova forma, como pessoas novas sem ter medo de voltar atrás sobre algumas escolhas para fazermos outras mais significativas e radicais que os tempos atuais exigem. Como Padre Calábria, também nós somos chamados a olhar para a hora atual não com pessimismo, mas com autêntico realismo e um verdadeiro sentimento de fé e esperança, próprio de quem vive abandonado nas mãos da Divina Providência.

Caríssimos irmãos e irmãs, desejemo-nos um bom ano na certeza de que Deus habita o nosso tempo e nos convida a renovarmo-nos para renovar o mundo.

 

Padre Miguel Tofful, PSDP

Tradução: Padre João Pilotti, PSDP

 

 

[1] Pe. Calábria. Cartas aos Religiosos XXVI, 22 de agosto de 1941.

 

[Revista A Ponte. Ed. 1, 2021]