Natal: Profecia do Acolhimento

 

NATAL: PROFECIA DO ACOLHIMENTO

 "... não havia lugar para eles na hospedaria" (Lc 2,7b)

IMAGEM: Foto: Vincenzo Pinto/AFP (Detalhe do presépio de areia da Praça São Pedro, no Vaticano)

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs da Família Calabriana,

                        a paz, a alegria e o amor do Menino Jesus encha os nossos corações e os torne cada vez mais capazes de acolher as pessoas como um dom, para dar esperança ao mundo.

Estamos nos aproximando aos dias santos do Natal. A liturgia deste período nos ajuda a refletir e a preparar os nossos corações para acolher a Palavra do Senhor feita carne, como um dom para a nossa vida. A sua Palavra nos impulsiona ao acolhimento daqueles que são a sua imagem e a sua carne sobre a terra: os mais pobres e abandonados.

            Meditando a passagem evangélica do nascimento de Jesus e considerando tantas situações que a humanidade de hoje vive, parei neste versículo que contém o grande mistério que celebramos: "Deu à luz seu filho primogênito, o envolveu em faixas e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala." (Lc 2,7)

            O Filho primogênito, a Palavra feita carne, que veio ao mundo, que é envolto em faixas e que é colocado numa manjedoura, é Jesus: Ele vem pra oferecer-nos a sua salvação, porém a humanidade segue o seu ritmo, as suas correrias, os seus programas, sem dar-se conta deste grande mistério que lhe é oferecido. A indiferença de ontem e de hoje faz com que Jesus não encontre lugar na hospedaria. Com outras palavras o evangelista João expressa o mesmo pensamento: "Veio entre os seus, e os seus não o acolheram." (Jo 1,11)

No acolhimento não existe nada de pior do que sentir-se rejeitado, e é ainda mais terrível sentir-se ignorado com indiferença e insensibilidade. Não era fácil para os contemporâneos de Jesus reconhece-lo por aquilo que Ele realmente é. Não é fácil ver que a pessoa que está à minha frente, ou ao meu lado, é o próprio Jesus que se revela no próximo.

Jesus nasce como qualquer um de nós, nasce na pobreza extrema. Não se trata somente da indigência material da família. Jesus também nasce longe do vilarejo onde moravam os seus pais, longe dos afetos de vizinhos e amigos. Aqui estamos diante do grande mistério da encarnação que toca a realidade de cada ser humano.

Em meio a esta pobreza material e de afetos, emerge a figura materna de Maria, que o acolhe, o envolve em faixas e o acomoda numa manjedoura, porque não há outro lugar para eles. A manjedoura torna-se o símbolo do acolhimento, torna-se os braços e o coração capazes de acolher a Palavra feita carne: a vida de Jesus.

Irmãos e irmãs, nesta realidade que Lucas nos apresenta há um valor e uma atualidade extraordinários, porque tornam-se um convite concreto para cada um de nós hoje a tornarmo-nos braços e coração que, como a manjedoura, acolhem Jesus e a sua salvação, superando toda e qualquer indiferença em relação à Palavra feita carne.

Este modo de receber faz sim que o próprio acolhimento seja profecia na realidade em que vivemos, diante das tantas situações de rejeição que se verificam também nos nossos ambientes católicos e - devemos admiti-lo - na nossa Família Calabriana.

Pareceu-me oportuno e urgente, neste Natal, refletirmos sobre o acolhimento, porque arriscamos de fecharmo-nos nos nossos pensamentos, nos nossos programas, nos nossos interesses, numa atitude egoística que nos faz pensar primeiro em mim, a nós, e depois aos outros; e por fim, de fechar o nosso coração e a nossa vida ao acolhimento do dom que nos é entregue pelo amor que Deus condividiu com a nossa humanidade.

O Espírito do Natal nos dê aquela capacidade de olhar para dentro, de sair de nós mesmos, de imitar as atitudes de Maria, que envolveu em faixas e acolheu o Menino que acabara de nascer, também se não havia lugar na sala. Sem o verdadeiro Espírito do Natal também nós corremos o risco de cair na indiferença, de rejeitar, de não acolher, na convicção de que "não há lugar".

Não é verdade que não tem lugar, não é verdade que faltam espaços, não é verdade que faltam meios... sempre tem um lugar! Nós da Família Calabriana devemos fazer-nos protagonistas de um acolhimento que se torna profecia, sabendo que quando acolhemos alguém é o próprio Jesus que estamos acolhendo. Para nós o acolhimento, o espírito de família e a inclusão não são opcionais: fazem parte do carisma e do ser filhas e filhos de Deus, que não rejeita ninguém, porque todos têm um lugar no coração de Deus. Em outras palavras, devemos ser "o coração de Deus Pai", mesmo diante dos nossos limites e fragilidades, mas no acolhimento amoroso de todos.

O gesto de Maria no acolhimento de Jesus com ternura e afeto, fazendo-lhe lugar na manjedoura, é um gesto extraordinário para se aprender, porque nos ensina a acolher com dignidade, de maneira muito simples, não obstante a pobreza dos meios. Não podemos acolher de qualquer modo, devemos acolher bem, com dignidade, porque cada pessoa tem um valor único. Não devemos ter medo de ir contra a mentalidade corrente nesta sociedade do descarte, onde as pessoas podem ser rejeitadas e marginalizadas por causa de outros interesses, que não são nada evangélicos.

No mundo em que vivemos, na realidade cotidiana de nossas famílias, das nossas comunidades e da própria missão que nos foi confiada, devemos aprender o que é o verdadeiro acolhimento, tornando-nos sinais proféticos do amor de Deus Pai, que nos ama e cuida de seus filhos.

Pe. Calábria nos ensina o acolhimento quando, no longínquo novembro de 1897, acolhe o primeiro Jesus na pessoa daquele menino. Fez gestos que exprimem verdadeiro acolhimento: vê, se inclina, sacode suavemente, reconhece e acolhe, como na parábola do bom samaritano. Ele mesmo, a partir daquele momento, procura acolher todas as pessoas que se encontram em dificuldade, oferecendo-lhe uma casa e devolvendo-lhe a dignidade. Daquele momento em diante jamais ficará indiferente frente a situações de pobreza. Ele mesmo, e depois a Obra, procuraram cuidar das dimensões fundamentais da vida das pessoas.

Num de seus escritos nos encoraja: "Que as festas natalinas que se aproximam nos encontrem todos preparados para fazer alegre acolhimento a Jesus, que se fez pobre e pequeno para ensinar-nos a humildade e o sofrimento, e que o ano novo nos encontre prontos a fazer até o fim a vontade de Deus, a única coisa que conta para a nossa paz aqui na terra e para a feliz eternidade."[1]

O que significa acolher do ponto de vista humano e evangélico? Como eu vivo no meu cotidiano o acolhimento? Estou disponível a acolher todos de coração ou faço diferenças? Hoje, guardando no coração e na memória a Palavra de Jesus, devemos comtemplar quem é colocado às margens do caminho, e carrega em sua carne sinais de sofrimentos, pobreza, marginalização, mendigando um pouco de compaixão. Em Jesus, que não é acolhido porque não havia lugar para eles na sala contemplamos a situação dos pobres e excluídos, dos afastados, dos últimos da sociedade, dos abandonados à própria sorte, àqueles que ameaçam a nossa segurança, de todos aqueles que, jogados às periferias, não são tratados com dignidade.

Que o Menino Jesus nascido em Belém nos doe um coração generoso, verdadeiramente capaz de acolher. Nas nossas casas e atividades ninguém se feche ao acolhimento, que é uma das características mais belas que nos deixou e ensinou o Pe. Calábria. Nas nossas famílias, nas nossas comunidades, na nossa missão possamos, com coragem, reproduzir os gestos de Maria que acolheu o Menino que acabara de nascer e o envolveu em faixas, assumindo a atitude contrária àquela do mundo que se fecha sempre mais.

Que este Natal nos ajude a sermos mais humanos, mais cristãos, fazendo lugar no coração, na nossa vida, em nós, para aquelas situações de pobreza e marginalização que toda a humanidade está vivendo. Paremos e façamos espaço nos nossos corações, para acolher Jesus que hoje nasce no meio de nós.

Confira a Mensagem da íntegra acessando <https://drive.google.com/file/d/1wt8kB3w_hnO47Y5sFiHUNVaE3gL_YI_i/view?usp=sharing

 


[1]Pe. CALÁBRIA, Apostolado dos Enfermos, dezembro de 1950.