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A Paróquia, um mosaico vocacional

Paróquias

A existência de cada pessoa é a resposta que ela dá, de alguma forma, à iniciativa de quem, movido por amor, a chamou à vida humana, sem consultá-la antes. Escolha e decisão livre de Deus. “Toda a vida e a vida toda é uma resposta” (NVNE, 26a.) A relação “chamado-resposta” é o que se quer expressar com a palavra “vocação”. Toda pessoa é uma vocação e vivencia um dinamismo vocacional único, como dom, responsabilidade e meta – cada um por seu caminho (Cf. GeE nn. 10 e 13).

Na Carta aos Efésios, está escrito que “Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor” (Ef 1,4). Santa Teresinha, desejosa de vivenciar todas as vocações, aquietou-se quando descobriu que o amor encerra tudo; e disse: “No coração da Igreja serei o amor”. É isso mesmo: fazer da vida uma resposta de amor a quem tomou a iniciativa de me amar primeiro. E, por ser de amor, essa resposta será resultado de fantasia e criatividade. Fomos criados pelo Amor, por amor, segundo o Amor, para amar (Cf. Gn 1,26ss). Por isso, Jesus resume a Lei e os Profetas em amar a Deus e ao próximo (Mt 22,36ss).

Este é o início, o ponto de partida, o básico de uma vida verdadeiramente humana, segundo o sonho de Deus: aprender a amar porque Deus nos amou primeiro (Cf. 1 Jo 4,19). Este é o espírito, o sentido da catequese de Iniciação à Vida Cristã: ser introduzido na relação amorosa com Deus e aprender a traduzir isso em relações fraternas e comunitárias, e em dinamismo missionário; integrar a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus, fazendo a experiência de ser casa da Palavra, do Pão, da Caridade, em estado de Missão, sempre de portas abertas para ir e para acolher (Cf. DGAE n. 7).

O Papa Francisco exclama: “Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com tua vida!” (GeE n. 24). Toda existência vivida, à luz da fé, como vocação, na tensão entre o chamado permanente e a resposta também permanente, se torna missão. “Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo” (GeE n. 21).

Vida, vocação, santidade, missão, existência, tudo sintetizado no nome que cada um recebeu no batismo: José, Maria, Antônio, Lúcia... “Pede sempre ao Espírito Santo, o que Jesus espera em cada momento de tua vida e em cada opção que tenhas de fazer, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje! (GeE n. 23).

A Igreja é a assembleia dos que Deus convocou. Todos e cada um em particular. “Escuta, Israel...” (Dt 6,4ss.). “O Senhor chamou Samuel...” (1Sm 3,4ss.). “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10). Vocação não é um privilégio ou monopólio de clérigos e consagrados. Há diferentes vocações, tão numerosas e abundantes quantos somos os filhos e filhas de Deus. Uma pluralidade de que só o Espírito Santo é capaz, e uma universalidade que só o Amor de Deus pode abranger.

Quando se explica isso para as pessoas, os olhos brilham. Deixa de haver comparações que diminuem uns em relação a outros. Passam a entender que somos únicos, diferentes, igualmente importantes porque de cada um e de cada uma de nós Deus fez um dom aos demais. Somos dom e carisma para servir. Por isso, a Pastoral Vocacional destinasse à comunidade inteira.

Como um mosaico que resulta de muitas peças ou fragmentos, todos diferentes, porém necessários e importantes, dispostos harmonicamente, assim a comunidade dos que seguem a Jesus. A obra de arte se valoriza nos detalhes, nem sempre tão imediatamente visíveis. Jesus dizia: “Eu sou a videira, vós os ramos” (Cf. Jo 15,1-5). E São Paulo: “Cristo é a Cabeça, vós os membros” (1Cor 12,27); “Muitos são os carismas, um só é o Espírito” (1Cor 12,4-11).

Comunidade vocacionalmente animada é um corpo vivo, saudável, com todos os membros conscientes de sua identidade e cumprindo seu papel. É como um jardim, onde cada flor na sua diversidade revela o que lhe é mais próprio, sem comparar-se com nenhuma outra. É como um ecossistema vocacional, onde cada forma de vida depende das demais e contribui com elas.

Em comunidades vocacionalmente fortes, onde o crescimento na fé e a opção vocacional se impregnam mutuamente, cada membro, a partir de sua vocação, valoriza, admira, promove e se alegra com as outras. A visão reduzida ou empobrecida do que é “vocação”, concebendo-a como exclusiva dos clérigos ou das pessoas consagradas, diminui e adoece a Igreja. É a enfermidade da “crise vocacional”.

Um novo florescer de autênticas vocações sacerdotais e religiosas, que germinam, crescem e amadurecem numa comunidade de fé, depende de uma conversão comunitária. Nossa Conferência Episcopal fala disso em Documentos como aqueles sobre a Iniciação à Vida Cristã, o Laicato, a Nova Paróquia e as Comunidades Eclesiais Missionárias.

“A paróquia, mais exatamente, é o lugar em que o fiel pode pôr em ação as diversas articulações da fé, [...]: da fé rezada à fé celebrada, da fé estudada e compreendida à fé vivida, da fé sofrida-provada à fé partilhada e anunciada, permanecendo unidas a fé e as condições da vida civil cotidiana. O aspecto característico e peculiar da paróquia é o cotidiano, o normal, o ordinário” (Amedeo Cencini, “Uma Paróquia Vocacional”, Ed. CNBB).

O Mês Vocacional, incentivando a oração indispensável e a necessária reflexão, procura promover essa compreensão ao celebrar os vários “grupos vocacionais”: o laicato (o Matrimônio, o estado de solteiro assumido como vocação, os ministérios); o clero (os Ministros Ordenados: diáconos, padres e bispos); a vida consagrada (com suas variadas expressões e formas). Ninguém está excluído. Em algum grupo cada um se encontra. Poderíamos dizer que agosto é o Mês da Igreja.

A Pastoral Vocacional não pode ser atribuição somente de uma pessoa ou de um pequeno grupo. Precisa impregnar nossos planos de Pastoral e o espírito de cada membro da comunidade, fazendo de todos, animadores e animadoras vocacionais.

 

 Dom João Francisco Salm
Bispo Diocesano de Tubarão
Presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada

Disponível em CNBB