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Irmão Aires Paesi - "O Pobre Servo tem que ser um sinal de Deus"

Testemunhos

Irmão Aires Paesi, nasceu no dia 21 de fevereiro de 1958, em São Jorge - Garibaldi, RS. No dia 2 de fevereiro 2020 comemorou 40 anos de Vida Consagrada. Por ocasião desta data memorável realizamos uma entrevista, na qual o Irmão partilhou um pouco de sua história.

Irmão Aires, conte-nos um pouco sobre sua família:

“Sou filho de Arduino Paesi e Ida Orvelina Brugalli Paesi; o terceiro de quatro irmãos. Morávamos num grupo de famílias, três famílias, mais ou menos 15 pessoas. Quando era pequeno brincava de rezar a missa, de padre, no sótão da casa”.

Como o Irmão conheceu e ingressou na Congregação Pobres Servos da Divina Providência?

“No início queria ser Marista, pois um Irmão Marista passava na escola onde estudava, e estava me acompanhando vocacionalmente; cheguei a receber uma carta convidando-me para o estágio vocacional. Entretanto, um dia passou Dom Benedito Zorzi – Bispo de Caxias do Sul, pela escola e me perguntou ‘O que eu queria ser’. Respondi que queria ser Padre. Durante a missa Dom Benedito apresentou a todos minha resposta. Minha mãe depois perguntou: ‘ah! Você quer ser padre, então eu conheço o [Padre] Benildo Ceresa, que é nosso vizinho, ele está no Seminário em Farroupilha, você não quer ir lá?’ Meses depois, o Padre Antônio Gasparini veio me visitar. Assim, mudei de ideia e não quis mais ingressar nos Maristas. Na verdade, não tinha muita ideia do que era ser Marista, Pobre Servo, Capuchinho; pois era muito novo. Ingressei no Seminário em 1969, com 11 anos de idade”.

O Irmão sentiu alguma dificuldade no Seminário?

“Dificuldades realmente já tive. A maior delas foi de querer ir embora por causa da rotina. Tinha horário para tudo... se queria fazer alguma coisa tinha que perguntar sempre para o superior. Falei com minha mãe, sobre isso, e ela me disse: ‘aguenta mais um pouquinho até o final do ano para ver o que vai acontecer’. E assim, fiquei até o final do ano, até hoje e já são 51 anos”.

Como foi o discernimento para Religioso Irmão?

“No Seminário falava-se muito sobre o discernimento. Eu ficava observando os padres e os irmãos. Conversava bastante. Meu diretor espiritual/superior era o Padre Antônio Mosele. Conversava bastante para ajudar a discernir a vocação, se Deus me chamava para a Vida Religiosa como Irmão ou Padre. Eu digo sempre, não é porque é bonito, não é porque é feio; não porque eu gosto de trabalhar. O gosto acaba, a beleza acaba e, então, não é por causa disso que alguém deve decidir. Faço também a comparação: alguém casa, não pela beleza de uma mulher, de um homem, mas porque sente alguma coisa a mais. Algumas pessoas dizem: ‘mas você não gosta de trabalhar com doentes?’. Não é uma questão de gosto não gosto, mas é algo que vem do natural, das conversas e orações”.

O que o Irmão percebe como importante para este discernimento?

“O que ajudou muito foi a abertura e o diálogo franco com quem me acompanhava. Repito hoje para todo mundo, sobre a importância do diálogo, da confiança com quem está acompanhando. Porque essas pessoas querem sempre o nosso bem, querem aquilo que Deus quer. O diálogo e a conversa com quem está junto. Eu fazia seguido, o máximo de vezes, quase toda semana

Durante todo o período de formação, além da abertura e do diálogo, o que mais lhe ajudou?

“Uma das coisas que me ajudaram muito e foi bom, acontecia no período das férias. Como meus pais moravam em Porto Alegre o Padre Antônio me pedia para ficar um tempo a mais com os religiosos. Assim, fui ao Mato Grosso do Sul, em Anaurilândia para ajudar a construir o hospital e algumas vezes ao Uruguai para trabalhar. Outras vezes participei dos retiros e também ajudava os meus pais no restaurante.

Como já estava decidido que seria Irmão e médico, e todos já sabiam disso, esperavam que eu fosse para o Noviciado no outro ano. Só que não aconteceu isso. Disseram-me que não. Foi uma tristeza, mas não aquela tristeza de dizer que ia embora. Meus colegas disseram: ‘os padres são doidos, tu quer ser médico, vai perder tempo, porque tu não vai fazer logo o noviciado?’. Acredito que foi a melhor coisa que aconteceu, pois fui trabalhar como Postulante no bairro Restinga em Porto Alegre, ajudando no Centro de Promoção do Menor (hoje, Centro de Promoção da Infância e da Juventude) e na Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia.

Vivi o noviciado no ano de 1979, iniciado em Farroupilha, posteriormente transferido para o Mato Grosso do Sul, pelo período de 9 meses, e retornado no final do ano para Farroupilha. Para ser sincero não queria ir ao Mato Grosso do Sul viver o noviciado, mas sempre tem os pros e contras. Porque era um grupinho, só nós oito; longe de tudo; só nós, só nós, só nós, e nada mais; e os bois e as chuvas. E não tinha mais ninguém para as formações, as vezes vinha o Padre Leão, Padre Gaetano. No dia 2 de fevereiro de 1980 realizei os primeiros votos.”

Como foi cursar medicina, ser médico?

“Ser médico foi uma decisão que se desenrolou ao longo da formação. A Congregação deu toda a força nessa caminhada. No final do ano de 1980 fiz o vestibular de medicina em Caxias do Sul/RS, passei entre os primeiros. Vi como um sinal de Deus passar no vestibular. Já no primeiro ano da graduação, recebi a informação de que um casal da Itália iria pagar toda a faculdade. Nesse gesto, também vi um sinal muito grande da Providência de Deus”.

Conte-nos um pouco sobre a experiência missionária:

Irmão Aires em missão na Angola.

“Durante toda a minha história, nesses 40 anos de Vida Consagrada, não é que tenha escolhido a missão. Sempre me coloquei a disposição, ‘disposto a tudo’. Naturalmente, por ter cursado a medicina, servi mais como médico. A Congregação pediu, algumas vezes, que não exercesse a medicina. Em 2003, para assumir a missão no Hospital Divina Providência – Marituba/PA; em 2019, para fazer um curso na Itália. Fiz essas experiências e não fiquei chorando, ou dizendo que não queria. Colocava-me a disposição. Hoje, também, não estou exercendo a medicina todo o dia.

No período em que estive em Anaurilândia, fazia plantões de 24 horas, 3 a 4 dias seguidos. Ficava cansado, esgotado, as vezes pensava: porque escolhi ser médico. Porque não ser padre. Mas eram raivas que vinham e desafogava. Trabalho tinha bastante. A oração muitas vezes não era assídua. Recordo o que disse Dom Adélio Tomasin, para mim: ‘não te preocupe tanto com os horários, faz bem a tua oração, vai e faça bem o teu trabalho de médico, estudante e não fica perdendo tempo por aí’. Para não ficar carregando aquele escrúpulo, peso, de que lá em casa estão rezando e eu não estou rezando.

No ano em que estive na Itália, fazendo um curso, me deu uma crise danada, mas não uma crise por causa de mulher. Não tinha vontade para nada, não queria sair, não queria ir para frente, não tinha mais vontade para nada, não tinha mais fé... Padre Pedro uma vez me disse: ‘vai embora, pois não sei mais o que fazer contigo’. Outra ocasião Padre Antônio Mosele me disse: ‘Aires, você não tem fé? Você é médico. Quando você toma um comprimido, sente ele lá dentro te cutucando, fazendo efeito?’ Eu disse que não. O Padre prosseguiu: ‘você acha que Deus não faz o mesmo?’ Eu não preciso sentir nada para saber que Deus está aqui.

A missão na Angola também foi um pouco dura, por causa do ambiente de guerra. Doenças extremas, que nunca tinha visto. Nesse período fiquei também como superior na casa de formação, com uma autorização especial do Vaticano. Trabalhava e rezava bastante. Éramos um grupo grande na casa. Foi um período muito bom.

Em Marituba foi um período desgastante, porque nunca tinha trabalhado na administração. Uma realidade complexa.

Uma atitude que tenho sempre em minha vida é a oração. Rezo pelos coirmãos, por todos nós, para que busquemos o que Deus quer e não nossos desejos. Ver o que Deus quer para a minha vida.

Tenho uma frase que digo sempre: É nos acidentes geográficos da terra que existem os pontos turísticos, quenions, montanhas; então, na vida é a mesma realidade: as vezes estamos nos buracos, nas montanhas... são momentos importantes para fortalecer”.

Frases bíblicas:

“Vinde a mim vós todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso”. (Mt 11,28)

“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!” (Lc 1,38)

Ir. Aires com a Comunidade Religiosa de Marituba, PA (2017).

O que é ser Religioso Pobre Servo da Divina Providência?

“Lembro-me da Angola. Certa vez um angolano nos questionou: ‘nós vamos na escola, e dizem que os maristas trabalham com os jovens; os carlistas com os migrantes; os capuchinos... e nós não sabemos com quem!’ Respondemos a ele que a nossa característica é ‘Buscar em primeiro lugar o Reino de Deus’, e pronto! O jovem prosseguiu: ‘mas isso, não é nada; isso não diz nada’.

Ser Pobre Servo não tem características externas; todos nós temos que buscar a união com Deus, e tem vários caminhos. O nosso caminho é esse. Para mim ser Pobre Servo é: ‘Buscar em primeiro lugar o Reino de Deus’; te abandonar nas mãos de Deus; ir onde ninguém quer ir; estar disposto a tudo.

Ser Pobre Servo é viver a minha vida da melhor maneira, onde estou, em clima de família. Não existe uma pintura, um quadro de Pobre Servo.

O Pobre Servo tem que ser um sinal de Deus onde estiver”.

1990 - Negrar, Itália.

Como viver o carisma?

“Devemos vibrar pelo carisma, assimila-lo da mesma forma que assimilamos a comida em nosso corpo, que se transforma em músculo e energia. A espiritualidade e o carisma também devem ser assimiladas por todos”.

O que Deus nos pede?

“O Senhor não pede muita coisa. Só duas coisinhas: ‘Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo’. Basta! É isso! E por que complicar?”

O que significa família?

“Família é uma das realidades mais importantes. Minha família são os Pobres Servos da Divina Providência. Sentido de pertença. Nós somos família. Somos família em tudo, nas alegrias e tristezas”.

Mensagem final

“Nós não somos gavetas, somos um todo; nosso organismo é um todo, que vive bem a sua harmonia. Quando um sofre, todo mundo sofre. Não devemos complicar nossa vida. Nossa vida deve ser vivida na simplicidade, na abertura, na busca sincera da vontade de Deus. Serve para mim, serve para os outros. Devemos ser água cristalina e não água suja que fica escondendo coisas. É importante nós sermos simples, abandonados nas mãos de Deus, assim, como a Bem-Aventurada Virgem Maria: ‘Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!’ (Lc 1,38). Façamos o que Deus nos pede, e nos coloquemos nas mãos Dele, que certamente, Ele nos acompanhará sempre. Mesmo se muitas vezes não sentirmos a sua presença. Não queiramos fazer coisas extraordinárias. Não queiramos ser os “papavero”, pessoas que querem aparecer, ser mais que os outros”.

HISTÓRICO DE MISSÃO

 1980: COV São João Calábria – Porto Alegre/RS

1981 a 1983: Seminário Apostólico Nossa Senhora de Caravaggio – Farroupilha/RS

1984 a 1987: Centro de Orientação Vocacional – Porto Alegre/RS

1988 a 1990: Hospital Sagrado Coração de Jesus – Anaurilândia/MS

1990 a 1991: Comunidade Don Calábria – Negrar/Itália

1991 a 1998: Hospital Sagrado Coração de Jesus – Anaurilândia/MS

1999 a 2002: Hospital Divina Providência e Casa de Formação – Luanda/Angola

2003 a 2018: Hospital Divina Providência – Marituba/PA

 

[Revista A Ponte, vol 3, p. 70, 2020]