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Liturgia das Horas e oração

Liturgia

Proclamar a fé, expressar e alimentar a esperança, louvar a Deus

Irmão Rafael Pedro Susrina, PSDP 

Orar é uma das ações mais antigas dos povos, não há cultura que não possua uma prática religiosa, um ritual, um contato com o transcendente. A Sagrada Escritura, do primeiro ao último livro, traz inúmeras citações sobre oração, expressando a necessidade dos povos de entrar em comunicação com o divino, pelas mais diversas ocasiões. Cada um desses versículos traz elementos únicos da intimidade/necessidade pessoal, e, também, comunitária para com Deus. Vejamos algumas destas intimidades:

Abraão se aproxima de Deus e interroga-O sobre suas ações diante do povo de Sodoma: ‘destruirás o justo com o pecador?’ (cf. Gn 18,23-33). Que tipo de proximidade permite Abraão conversar com Deus desta forma? Como é a minha linguagem com Deus?

Moisés que suplica a Deus: ‘Por que, ó Iahweh, se acende a tua ira contra o teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte?’ (cf. Ex 32,11-14). Em outra ocasião ‘se encontrei graça aos teus olhos, mostra-me o teu caminho, e que eu te conheça e encontre graça aos teus olhos; e considera que esta nação é teu povo.’ (cf. Ex 33,12-17). Que informalidade permite essa relação?

Davi diante de Deus diz: ‘quem sou eu, Senhor Iahweh, e qual é a minha casa para que me trouxesses até aqui? [...] Porque és tu, Senhor Iahweh, que tens falado, e é pela tua bênção que a casa do teu servo será abençoada para sempre.’ (cf. 2Sm 7,18-29). Que tipo de contato é necessário para, em um diálogo, passar da desconfiança para a confiança?

Salomão ao postar-se diante do altar de Deus, na presença de toda a assembleia de Israel, estende as mãos para o céu e diz: ‘Iahweh, Deus de Israel! Não existe nenhum Deus semelhante a ti lá em cima nos céus, nem cá embaixo sobre a terra; a ti, que és fiel a Aliança e conservas a benevolência para com teus servos, quando caminham de todo coração diante de ti.’ (cf. 1Rs 8,22-53) Que experiência entre Deus e Homem possibilita essa proclamação de fé?

Ezequias ora na presença de Deus: ‘Iahweh, Deus de Israel, que estás sentado sobre os querubins, tu és o único Deus de todos os reinos da terra, tu fizeste o céu e a terra. Inclina teus ouvidos, Iahweh, e escuta, abre teus olhos, Iahweh, e vê!’ (cf. 2Rs 19,15-19). Que tipo de convívio permite recorrer a Deus na necessidade?

Asa invoca Deus: ‘Não há ninguém igual a ti, Iahweh, para socorrer tanto o poderoso como o fraco. Socorre-nos, Iahweh nosso Deus! É em ti que nos apoiamos e é em teu nome que marchamos contra esta multidão.’ (cf. 2Cr 14,10-11). Para que e porque invoco Deus?

Josafá de pé: ‘Iahweh, Deus de nossos pais, não és tu o Deus que está nos céus? Não és tu que dominas sobre todos os reinos das nações?’ (cf. 2Cr 20,6-12). As interrogações que faço a Deus trazem respostas? Escuto as respostas? As respostas brotam de Deus ou de mim mesmo, do demônio? Sei discernir?

Elias diz: ‘Iahweh, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas.’ (1Rs 18,36-37). O que consigo dizer a Deus?

Amós suplica: ‘Senhor Iahweh, perdoa, eu te peço!’ (cf. Am 7,1-6). O que peço a Deus?

Jeremias: ‘Se nossas faltas testemunham contra nós, age, Iahweh, por causa do teu Nome! [...] Nós reconhecemos, Iahweh, nossa maldade, a falta de nossos pais: porque pecamos contra ti!’ (cf. Jr 14,7-20; 20,7-18). O que reconheço diante de Deus?

Esdras de tarde, com a veste e o manto rasgados, de joelho, estende as mãos para Deus e diz: ‘Meu Deus, estou coberto de vergonha e confusão ao levantar minha face para ti, meu Deus.’ (cf. Es 9,6-15). De que forma me porto diante de Deus?

Neemias diz: ‘Ah! Iahweh, Deus do céu, o Deus grande e temível, que guarda a aliança e a misericórdia para com aqueles que o amam e observam seus mandamentos, que teus ouvidos estejam atentos e teus olhos abertos para ouvir a prece do teu servo. Dia e noite eu te suplico em favor dos filhos de Israel, teus servos, e confesso os pecados dos filhos de Israel, que cometemos contra ti.’ (cf. Ne 1,5-11). Rezo pela humanidade? Sinto-me em comunhão com a Igreja? Teço preces por outros ou sou individualista?

Salmos: “Quanto a mim, Iahweh, a ti dirijo minha prece! No tempo favorável responde-me, Deus, por teu grande amor, pela verdade da tua salvação!” (Sl 69,14). Uma oração proferida sem obrigar Deus a realiza-la. Consigo rezar confiando a Deus a realização ou não da prece?

Estas são algumas das intimidades do Antigo Testamento que elucidam a diversidade de orações e contatos de uma pessoa com Deus. A intenção de traze-los é possibilitar uma melhor compreensão do que significa orar e de como orar. Sem nos preocuparmos em fazer igual a eles, mas sim em usarmos das palavras deles, de suas experiencias, e tecermos a nossa oração. Isso acontece perfeitamente na Liturgia das Horas no qual rezamos com os salmos, hinos, Palavra de Deus e preces.

Os salmos não foram escritos por mim ou você, mas é a intimidade de outra pessoa com Deus que deu vida a esta oração, possibilitando uma variedade de gêneros literários: hinos (louvor), súplica, confiança e ação de graças, litúrgicos, sapienciais, históricos, régios e imprecatórios. Cada momento da oração das horas nos conduz a rezar com o ontem, no hoje para amanhã.

A Liturgia das Horas consagra o tempo[i]

A ‘Liturgia das Horas: a oração do Povo de Deus’ cumpre o mandato de Jesus Cristo de “orar sempre, sem jamais esmorecer” (Lc 18,1). Elevando ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo orações incessantemente; realçando esse desejo por meio das orações nas mais diversas horas do dia; consagrando por fim o curso do dia e noite a Deus, “do nascer do sol até o seu ocaso, louvado seja o nome do Senhor!” (Sl 113,3).

Qual o cristão que não deseja viver em Deus durante o dia?
Nos momentos de alegria lembrar de Deus;
Na hora da dificuldade lembrar de Deus;
Na hora do agradecimento lembrar de Deus;
Na hora da tristeza lembrar de Deus;
Na hora do louvor lembrar de Deus;
Na hora da ofensa lembrar de Deus;
Na hora do sofrimento lembrar de Deus;
Na hora de amar lembrar de Deus;
Na hora de doar-se lembrar de Deus;
Na hora de pensar lembrar de Deus;
Na hora de viver lembrar de Deus;
Ou seja, toda hora ser hora de Deus.
Para ajudar o cristão que busca responder a este desejo, a oração da Liturgia das Horas é o melhor e mais seguro caminho.

A Liturgia das Horas e a Eucaristia[iii]

A celebração da Santa Missa tem na Liturgia das Horas a sua melhor preparação. O que faço para me preparar dignamente a celebração deste mistério? Simplesmente chego à igreja, faço o sinal da cruz, reverência a Jesus no sacrário, ajoelho-me, rezo, e estou pronto para a Missa? A Igreja apresenta a Liturgia das Horas como caminho para uma melhor celebração eucarística, pois esta ‘desperta e alimenta da melhor maneira as disposições necessárias para celebrar com proveito a Eucaristia’, nos imbuindo de fé, esperança, caridade, devoção e espírito de sacrifício.

O cristão que busca cada vez mais viver intensamente a Eucaristia, aproveitará dos recursos disponíveis para atingir este objetivo. Já que a Liturgia das Horas estende ao longo das horas do dia louvores e ações de graças, ela também torna viva ‘a memória dos mistérios da salvação, as petições e aquele antegozo da glória celeste, contidos no mistério eucarístico, ‘centro e ápice de toda a vida da comunidade cristã’’. Rezar a Liturgia das Horas expande, pelo decurso do dia, a graça de ter vivido a celebração eucarística, recebendo e realizando os frutos deste mistério.

A Liturgia das Horas e a função sacerdotal de Cristo[iv]

O batismo confere ao cristão a participação no sacerdócio de Cristo. Quando estou rezando a Liturgia das Horas, Cristo está presente, e exerce ‘a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus.’ Torno-me intercessor e transpareço Deus na oração e nas horas do dia.

Na Liturgia das Horas a Igreja exerce a função sacerdotal de Cristo, oferecendo a Deus um sacrifício de louvor. Oração conhecida como ‘voz da Esposa que fala ao Esposo, e também a oração que o próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai.’ Participar deste belíssimo momento de oração une a terra aos céus, participamos da glória celeste por meio de nossa oração terrena. Cantamos/rezamos junto com os anjos e santos diante do trono de Deus e do cordeiro - narrados no Apocalipse - ‘em comum exultação, cantamos os louvores a divina majestade, e todos redimidos no sangue de Cristo, vindo de toda tribo, língua, povo e nação (5,9). Todos reunidos numa só Igreja, num só cântico de louvor engrandecemos ao Deus Uno e Trino.

A Liturgia das Horas possibilita proclamarmos nossa fé, expressarmos e alimentarmos nossa esperança e também participarmos do louvor perene na presença de Deus. Pois, sendo uma oração Cristo cêntrica colhemos benefícios que humanamente não conseguimos compreender e sentir com nossas próprias capacidades. É mistério, mas acontece e é Belo.

A Liturgia das Horas e a santificação do homem[v]

O diálogo entre Deus e o Homem também acontece na Liturgia das Horas, pois ‘Deus fala ao seu povo... e o povo responde a Deus, com cantos e orações.’, efetuando, assim, a santificação do homem e prestando culto a Ele. Todo Serviço que prestamos a Deus torna-se momento de santificação. Sou convidado a abrir-me para ouvir a voz de Deus que se manifesta de diversas formas durante a oração, de forma especial na leitura e meditação da Sagrada Escritura.

Liturgia das Horas: súplica, intercessão e fonte da atividade pastoral[vi]

A Liturgia das Horas além de ser oração de louvor a Deus é também súplica e intercessão. Pede-se a Cristo, ao Pai, no Espírito, pela salvação do mundo inteiro. Assim como Jesus apresentou sua prece ao Pai diversas vezes ao longo da sua vida mortal, nós continuamos este belo exemplo todas as horas. A Igreja é convocada a rezar cada vez mais e desta forma realizar o mandato de Jesus.

O objetivo da atividade apostólica é ‘que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo batismo se reúnam, louvem a Deus no meio da Igreja, participem do sacrifício e se alimentem da ceia do Senhor.’ Pois, através de suas vidas transformadas por Cristo tornem-se anunciadores, testemunhas, desta vivência.

Devemos louvar a Deus e suplica-lo com a mesma intenção com que o divino Redentor orava.

“Quanto mais um apóstolo se comprometer com uma multiplicidade de obras, mais deverá lembrar-se de que tem a responsabilidade de rezar.” (São João Calábria)

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[i] (cf. Instrução Geral da Liturgia das Horas, n. 10-11)

[iii] (Ibidem, n. 12).

[iv] (Ibidem, n. 13.15-16).

[v] (Ibidem, n. 14).

[vi] (Ibidem, n. 18).