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Santa Missa: liturgia da palavra

Liturgia

“O Espírito Santo é o mestre da harmonia, é capaz de criá-la e fê-lo aqui. Deve suscitá-la nos nossos corações, mudar muitas coisas em nós.” (Papa Francisco)

Irmão Rafael Pedro Susrina, PSDP

Em toda a Igreja o Espírito Santo age santificando. Na Santa Missa é “o verdadeiro artífice e protagonista da celebração”[1]. Somos convidados a invoca-lo para vivermos cada vez mais na graça que é Deus.

A Santa Missa é composta por duas partes: Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística, introduzidas pelos Ritos Iniciais[2] e concluídas com os Ritos Finais.

Liturgia da Palavra

“A parte principal da liturgia da palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Pois nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis. Pelo silêncio e pelos cantos o povo se apropria dessa palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé; alimentado por essa palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro.” (Instrução Geral do Missal Romano, n. 55)

Na Liturgia da Palavra Deus fala com seu povo, fala com cada um de nós em particular. Quem de nós não gosta de ouvir a voz do Pai, que carrega o amor em palavras, toca o coração, nos abraça, provoca e dá umas chacoalhadas? Despertando-nos do sono da tibieza e indiferença. Que santa voz podemos ouvir em cada Santa Missa! Ouvimos aquilo que Deus fez e ainda tenciona realizar por nós. O Papa Francisco, sobre a Palavra de Deus, exorta que “devemos ouvir, abrir o coração, pois é o próprio Deus que nos fala, e não podemos pensar noutras coisas nem falar de outros assuntos. [...] As páginas da Bíblia deixam de ser um escrito, para se tornar Palavra viva, pronunciada por Deus. É Deus quem, através da pessoa que lê, nos fala e nos interpela, a nós que ouvimos com fé.”[3]

O silêncio

“A liturgia da palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembleia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, se acolhe no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria liturgia da palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da homilia”[4] (IGMR, n. 56).

Leituras bíblicas

“Mediante as leituras é preparada para os fiéis à mesa da palavra de Deus e abrem-se para eles os tesouros da Bíblia. Por isso, é melhor conservar a disposição das leituras bíblicas pela qual se manifesta a unidade dos dois Testamentos e da história da salvação; nem é permitido trocar as leituras e o salmo responsorial, constituídos da palavra de Deus, por outros textos não bíblicos.” (IGMR, n. 57).

“Na celebração da Missa com povo, as leituras são sempre proferidas do ambão” (IGMR, n. 58).

Por tradição, o ofício de proferir as leituras não é função presidencial, mas ministerial. As leituras sejam, pois, proclamadas pelo leitor, o Evangelho seja anunciado pelo diácono ou, na sua ausência, por outro sacerdote. Na falta, porém, do diácono ou de outro sacerdote, o próprio sacerdote celebrante leia o Evangelho; igualmente, na falta de outro leitor idôneo, o sacerdote celebrante proferirá também as demais leituras. Depois de cada leitura, quem a leu profere a aclamação; por sua resposta, o povo reunido presta honra à palavra de Deus, acolhida com fé e de ânimo agradecido” (IGMR, n. 59).

“A leitura do Evangelho constitui o ponto alto da liturgia da palavra. A própria Liturgia ensina que se lhe deve manifestar a maior veneração, uma vez que a cerca mais do que as outras, de honra especial, tanto por parte do ministro delegado para anunciá-la, que se prepara pela bênção ou oração; como por parte dos fiéis que pelas aclamações reconhecem e professam que o Cristo está presente e lhes fala, e que ouvem de pé a leitura; ou ainda pelos sinais de veneração prestados ao Evangeliário” (IGMR, n. 60).

Salmo responsorial

“A primeira leitura segue-se o salmo responsorial, que é parte integrante da liturgia da palavra, oferecendo uma grande importância litúrgica e pastoral, por favorecer a meditação da palavra de Deus. De preferência, o salmo responsorial será cantado, ao menos no que se refere ao refrão do povo...” (IGMR, n. 61).

Aclamação antes da proclamação do Evangelho

“Após a leitura que antecede imediatamente o Evangelho, canta-se o Aleluia ou outro canto estabelecido pelas rubricas, conforme exigir o tempo litúrgico. Tal aclamação constitui um rito ou ação por si mesma, através do qual a assembleia dos fiéis acolhe o Senhor que lhe vai falar no Evangelho, saúda-o e professa sua fé pelo canto. É cantado por todos, de pé, primeiramente pelo grupo de cantores ou cantor, sendo repetido, se for o caso; o versículo, porém, é cantado pelo grupo de cantores ou cantor.

a) O Aleluia é cantado em todo o tempo, exceto na Quaresma.
b) No Tempo da Quaresma, no lugar do Aleluia, canta-se o versículo antes do Evangelho proposto no lecionário.” (IGMR, 62).

Um ponto importante que muitas vezes pensamos ser secundário em nossas comunidades, refere-se a capacidade dos leitores e salmistas em desempenhar este serviço, usamos como desculpa que “o povo é simples”, “são as pessoas que temos”, “ninguém quer”... mas o Papa adverte a necessidade de bons leitores e salmistas: “é preciso procurar bons leitores, que saibam ler, e não aqueles que leem [deturpando as palavras] e não se entende nada. É assim. Bons leitores! Devem preparar-se e ensaiar antes da Missa, para ler bem. E isto cria um clima de silêncio receptivo.”[5] Antes de usarmos desculpas esfarrapadas, deveríamos nos perguntar: quantas vezes busquei capacitar os leigos? Não os excluir, mas acolher aqueles que se disponibilizam a caminhar com eles, preparando-os, e assim, torna-los melhores comunicadores da palavra de Deus. Quanto a você leigo, tem se preparado para proclamar a Palavra de Deus? Ou crê já estar capacitado e devidamente pronto para este serviço? Somos convidados a nos aperfeiçoarmos cada vez mais, Deus merece ‘o melhor’ e não ‘o meia boca’ por fazer de qualquer jeito.

Além de melhores comunicadores, melhores ouvintes da palavra de Deus é necessário saber acolhe-la no coração, permitir que esta produza frutos. Tendo presente que “a ação do Espírito, que torna eficaz a resposta, tem necessidade de corações que se deixem modelar e cultivar, de modo que quanto é ouvido na Missa passe para a vida de todos os dias. [...] A Palavra de Deus percorre um caminho dentro de nós. Escutamo-la com os ouvidos e ela passa para o coração; não permanece nos ouvidos, mas deve chegar ao coração; e do coração às mãos, às boas obras. Eis o percurso da Palavra de Deus: dos ouvidos ao coração e às mãos.”[6].

O diálogo entre Deus e o seu povo, alcança o ápice na proclamação do Evangelho, pois os mistérios de Cristo nos são revelados. O ministro ordenado é o responsável por proclamar o Santo Evangelho; que juntamente com a assembleia, traça um sinal da cruz na testa, nos lábios e no peito; e no fim beija o Livro. “Não lemos o Evangelho para saber o que aconteceu, mas ouvimos o Evangelho para tomar consciência do que fez e disse Jesus outrora; e aquela Palavra é viva, a Palavra de Jesus que está no Evangelho é viva e chega ao meu coração.”[7]

O Papa Francisco adverte que “cada um de nós, quando vai à Missa, tem o direito de receber abundantemente a Palavra de Deus bem lida, bem proclamada e depois, bem explicada na homilia. [...] O Senhor fala para todos, Pastores e fiéis. Ele bate à porta do coração de quantos participam na Missa, cada um na sua condição de vida, idade, situação. O Senhor consola, chama, suscita rebentos de vida nova e reconciliada. E isto por meio da sua Palavra. A sua Palavra bate ao coração e muda os corações!”[8]

Homilia

“A homilia é uma parte da liturgia e vivamente recomendada, sendo indispensável para nutrir a vida cristã. Convém que seja uma explicação de algum aspecto das leituras da Sagrada Escritura ou de outro texto do Ordinário ou do Próprio da Missa do dia, levando em conta tanto o mistério celebrado, como as necessidades particulares dos ouvintes” (IGMR, n. 65).

“A homilia, via de regra é proferida pelo próprio sacerdote celebrante ou é por ele delegada a um sacerdote concelebrante ou, ocasionalmente, a um diácono, nunca, porém, a um leigo. Em casos especiais e por motivo razoável a homilia também pode ser feita pelo Bispo ou presbítero que participa da celebração sem que possa concelebrar. Após a homilia convém observar um breve tempo de silêncio” (IGMR, n. 66).

A homilia para o Papa é retomar o “diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo, para que seja posta em prática na vida.”[9] Por isso, a homilia deve ser bem preparada. Quem a pronuncia “deve estar consciente de que não faz algo próprio, mas prega dando voz a Jesus, prega a Palavra de Jesus. E a homilia deve ser bem preparada, deve ser breve, breve!”[10] Preparada na “oração, com o estudo da Palavra de Deus e fazendo uma síntese clara e breve, não deve superar 10 minutos, por favor!”[11]

Profissão de fé

“O símbolo ou profissão de fé tem por objetivo levar todo o povo reunido a responder à palavra de Deus anunciada da sagrada Escritura e explicada pela homilia, bem como, proclamando a regra da fé através de fórmula aprovada para o uso litúrgico, recordar e professar os grandes mistérios da fé, antes de iniciar sua celebração na Eucaristia” (IGMR, n. 67).

Oração universal

“Na oração universal ou oração dos fiéis, o povo responde de certo modo à palavra de Deus acolhida na fé e exercendo a sua função sacerdotal, eleva preces a Deus pela salvação de todos. Convém que normalmente se faça esta oração nas Missas com o povo, de tal sorte que se reze pela Santa Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem necessidades, por todos os seres humanos e pela salvação do mundo inteiro.” (IGMR, n. 69).

“Cabe ao sacerdote celebrante, de sua cadeira, dirigir a oração. Ele a introduz com breve exortação, convidando os fiéis a rezarem e depois a conclui. As intenções propostas sejam sóbrias, compostas por sábia liberdade e breves palavras e expressem a oração de toda a comunidade. As intenções são proferidas, do ambão ou de outro lugar apropriado, pelo diácono, pelo cantor, pelo leitor ou por um fiel leigo. O povo, de pé, exprime a sua súplica, seja por uma invocação comum após as intenções proferidas, seja por uma oração em silêncio.” (IGMR, n. 71).

Desta forma somos convidados a pedir ao Senhor as graças que precisamos para corresponder ao nosso Batismo; pedir pelas necessidades concretas da comunidade eclesial e do mundo. Transformando o nosso olhar, em olhar de Deus, que cuida de todos os seus filhos.

Celebrar a Santa Missa é viver intensamente a fé, é estar participando ativamente em todos os momentos. Que o Espírito Santo nos ajude a saborear a Liturgia da Palavra e assim servirmos ao projeto do Pai.

“Acreditemos em todas as palavras do santo evangelho, honremos Deus com essa fé plena e generosa.” (São João Calábria)

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[1] MAQUEDA, Adolfo Lucas. Espírito Santo e Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2020; p. 33.

[2] Abordado na edição 3 da Revista A Ponte: “os Ritos Iniciais são constituídos pela: Entrada, Saudação, Ato Penitencial, Kýrie, Glória e Oração do dia. Tendo o caráter de exórdio (abertura), introdução e preparação. ‘A finalidade dos ritos é fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembleia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia’ (IGMR, n. 46)”.

[3] FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 31 de jan. de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2018/documents/papa-francesco_20180131_udienza-generale.html. Acesso em: 30 ago. 2020.

[4] Os negritos dentro do texto da Instrução Geral do Missal Romano, são detalhes do autor, visam dar destaque a explicações que não se faziam presentes nas edições anteriores do Missal Romano.

[5] FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 31 de jan. de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2018/documents/papa-francesco_20180131_udienza-generale.html. Acesso em: 30 ago. 2020.

[6] Ibidem.

[7] FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 7 de fev. de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2018/documents/papa-francesco_20180207_udienza-generale.html. Acesso em: 30 ago. 2020.

[8] FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 14 de fev. de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2018/documents/papa-francesco_20180214_udienza-generale.html. Acesso em: 30 ago. 2020.

[9] FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 7 de fev. de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2018/documents/papa-francesco_20180207_udienza-generale.html. Acesso em: 30 ago. 2020.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem.

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PARA LER OS ARTIGOS ANTERIORES DESTA SÉRIE, VEJA ABAIXO:

1 - A beleza da liturgia Católica

2 - Liturgia: Santa Missa

3 - Santa Missa: oração/silêncio e ritos iniciais