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A esperança à luz do Natal do Senhor

Espiritualidade Calabriana

Todos os anos celebramos a festa do Natal do Senhor. O Advento, o Tempo Litúrgico que a antecede, é oportunidade para prepararmos nosso coração para o evento da Encarnação. Por isso, Natal é a festa do “Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Cf. Jo 1-14).

Iluminados pelo Natal, propomos uma reflexão sobre diversos modos de “esperar” que podemos encontrar, sobretudo “no olhar e atitudes” de alguns personagens daquela noite de luz, na pequena Nazaré da Galileia. Olhando para esses personagens, queremos lançar luz ao momento atual que a humanidade vive, sobretudo causado pela pandemia do Novo Coronavírus COVID-19. Perguntemo-nos, então: como o Natal pode renovar em nós a esperança? De que esperança estamos falando? O que realmente esperamos para a humanidade?

São João Batista, o precursor: A esperança cristã não é uma atitude passiva no sentido de esperar que alguém faça algo ou mesmo que algo possa acontecer, mas é um esperar ativo que exige de nós contínua prontidão e vigilância. São João Batista, o precursor, nos orienta como viver a virtude da esperança no que tange a “expectativa” do nascimento do Deus menino. Assim afirmou: “Preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas” (Lc 3,5). Podemos dizer que esperança cristã é sempre estar disposto a retirar todo e qualquer empecilho para que os frutos deste grande presente de Deus transforme a vida de todas as pessoas.

Maria: uma jovem menina, cheia de sonhos e projetos, mas que vivia também, com todo o seu povo, a expectativa da chegada do messias. Eis que o Anjo Gabriel a saúda a certificando de que Deus a tinha acompanhado até então: “Alegra-te, cheia de Graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Esta é uma certeza que encontramos na Sagrada Escritura: Deus está e caminha com o seu povo. E, agora, quer “armar sua tenda”, quer morar e permanecer conosco, pois ele é Emanuel (cf. Jo 1,14; Mt 1,23). De Maria aprendemos que a esperança sob a luz do Natal é fundamentada pela disposição diante da vontade de Deus, mesmo não a compreendendo por completo. Eis que ela respondeu ao anjo: “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra!” (Lc 1,38).

Isabel: Maria, sabendo que Isabel, já avançada em idade, estava grávida, foi às pressas para servi-la. Assim que entrou na casa, saudou Isabel. A sensibilidade e o “discernimento apurado de Isabel” a fez diferenciar essa saudação de tantas outras que certamente tinha ouvido de sua prima Maria: “Assim que Isabel ouviu a saudação de Maria a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo” (Lc 1,39). Assim, Isabel ensina-nos que esperar é estar sensível aos sinais da presença de Deus e das moções do seu Espírito: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?” (Lc 1,42-43).

Os pastores: representam os pobres para quem o Anjo anunciou a grande alegria. Certamente esperavam a chegada do messias, porém, jamais pensavam que fossem eles os primeiros a presenciarem a concretização do que dissera o profeta Isaías: “Sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7,14). Os pastores ouviram do anjo: “Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas deitado numa manjedoura" (Lc 2,11). Assim que os anjos os deixaram, os pastores disseram entre si: “Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2,15). Os pastores nos ajudam entender que esperança é prontidão para ir ao encontro de Deus que nasce em nossa história tomando, como sempre o fez, a iniciativa de vir ao nosso encontro. Da esperança de contemplar o mistério da manifestação de Deus anunciada pelos anjos e da prontidão de ir ao encontro do recém-nascido desperta o reconhecimento, a glorificação e o louvor a Deus (Cf. Lc 2,20).

Os reis magos: vieram do Oriente a Jerusalém com a esperança de encontrar o rei dos judeus que acabara de nascer (Cf. Mt 2,2). Ao verem a estrela de brilho ímpar seguiram seu rastro luminoso. Poderiam muito bem contentar-se em observar à distância. Contudo, não mediram esforços e fizeram uma longa viagem. A esperança aqui não é apenas saber a localização da estrela, mas de reconhecer que essa estrela aponta o local exato de onde se encontra o recém-nascido, e que Ele é Rei. Além disso, os magos não esperam só vislumbrar tal sinal, mas sobretudo trazem em seus cofres ouro, incenso e mirra (Cf. Mt 2,11). Esperança, portanto, é também não apenas esperar receber, mas também reconhecer, com a oferta de nossos dons, a realeza do recém-nascido, sua divindade e missão redentora por sua posterior Morte e Ressurreição.

 Pistas de esperança para os dias atuais à luz do Natal do Senhor:

O ano de 2020 exigiu de todos nós novas posturas diante da vida, das relações e do mundo. A pandemia causada pelo Novo Coronavírus COVID-19 nos fez refletir a fragilidade de nossa vida e o que é essencial. Celebrar o Natal a cada ano é ter a oportunidade de lembrar que Deus não é um estranho. E, conforme São Paulo, se Ele é por nós, quem será contra nós? (Cf. Rm 8,31). Assim, Natal é tempo de renovar a confiança e a esperança em Deus. Isto é que nos traz a verdadeira felicidade. Portanto, “Feliz aquele que põe a sua esperança no Senhor” (Sl 145,5).

Na figura de João Batista que convida a aplainar os caminhos do Senhor, escutemos os apelos que surgem de experiências difíceis do nosso cotidiano, particularmente a partir da pandemia. “Aplainar os caminhos, nivelar as montanhas” pode significar, neste contexto, acabar de vez com tudo aquilo que causa divisões, que nos torna menos solidários, menos responsáveis pela vida e pela casa comum. Ou seja, é preciso assumir nossa responsabilidade para que o Natal seja experiência de graça e alegria para todo o povo (Cf. Lc 2,10), e não para apenas alguns; e um esforço de todos para a construção de uma nova humanidade. Isto sim seria um “Novo Normal”.

Natal é tempo de descobrir, discernir e fazer a vontade de Deus. Em Maria, a Mãe de Jesus reconhecemos que foi graças ao seu despojamento, serviço e disponibilidade a Deus que Jesus nasce para nossa salvação. Por isso, também nós, se estivermos em sintonia com a vontade de Deus, podemos ter certeza que vamos ter maior cuidado para com a vida, maior respeito para com as pessoas e, diante de todos os momentos, como é o de uma pandemia, não gastaremos esforços buscando responder porque Deus permite que aconteçam coisas desse tipo em nossa vida, mas nos perguntaremos: o que Deus espera de nós? Neste sentido, podemos nos iluminar também pela figura de Isabel.

A sensibilidade de Isabel em reconhecer a presença de Deus quando recebe a visita de Maria, nos coloca na centralidade do mistério do Natal. Deus está no meio de nós. Ora, se Deus vem ao nosso encontro, por que não somos capazes de sairmos de nós mesmos e vivermos como realmente somos: “Todos irmãos”? Não basta reconhecer Deus e os seus sinais. É preciso reconhecê-lo e amá-lo nos irmãos e irmãs. Pois, “Se Deus nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. Se alguém disser ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (Jo 4, 11.20). Natal é tempo de sensibilidade para com o maior dom de Deus, o seu Filho único que vem ao nosso encontro e é tempo de reconhece-lo no rosto de nosso irmão.

Tempos de pandemia nos exigem posturas novas de prontidão, compromisso, desprendimento e doação. Nos pastores e nos reis magos podemos perceber claramente essas características. Os pastores demonstram-se abertos aos sinais de Deus. Atualmente, existe um esforço de tirar tudo o que remete ao sagrado, ao religioso. Muitos buscam a Deus ou mesmo expressam sua fé em tempos e em modos de conveniência. Tempos difíceis como é o de uma pandemia nos ajuda a pensar o quanto estamos distantes de Deus. O Natal é tempo de retomarmos nosso desejo de encontrar Deus, pois Ele está perto. É tempo de buscá-lo, porque se deixa encontrar (Cf. Is 55,6). Como os pastores de Belém, “Vamos já e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2,15).

Os magos, por sua vez, nos remetem ao reconhecimento do dom de si, à solidariedade e a partilha. Algumas pessoas, talvez nos últimos tempos com a experiência da pandemia, fecharam-se em si mesmos, e amontoaram coisas para si. Porém, em número maior, percebemos a solidariedade, a partilha dos bens, a dedicação do tempo, sem descanso de tantos profissionais da saúde que foram solidários, buscando salvar vidas, reconhecendo Deus no rosto daquele irmão ou irmã fragilizados, acometidos pela doença, e foram para tantos sinais de esperança.

Por fim, celebrar o Natal, após um tempo difícil é saber em quem colocamos a nossa esperança e é saber dar razão a esta mesma esperança (Cf. 1Pd 3,15). É oportunidade de redescobrir o valor da vida e das pessoas que amamos. Se quisermos viver um “Novo Normal” acolhamos, na simplicidade do Deus menino reclinado numa manjedoura, a vida em todas as suas dimensões. Celebrar o Natal exige que nos voltemos para o outro e o reconheçamos verdadeiramente como irmão, pois: Natal é celebrar Deus que nos doa em seu amor o seu Filho único; N’Ele, “somos todos irmãos”.

Padre Osvaldo de Oliveira, PSDP.

[Revista A Ponte. Vol. IV, p. 11, 2020]