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Vocação: uma resposta de amor

SAVC

Quando falamos em vocação é comum associar a este termo uma espécie de problema: a falta de vocação. Porém, ao pensar que seja um problema acabamos nos esquecendo da origem desta palavra. Vocação significa chamado, e não é um chamado qualquer, mas um chamado feito por Deus.

Não somos nós que chamamos, nós não temos o poder de ‘criar’ vocação, não depende da nossa vontade. Dizer que há ou não há vocação está além de nossas capacidades, mas isto é fruto da ação livre de Deus. É Ele que nos escolhe e chama. Não somos nós que escolhemos, apenas acolhemos o chamado e respondemos. (cf. Jo 15,16).

Na medida que somos chamados, devemos dar uma resposta, uma resposta livre. Podemos dizer sim ou não, ou até às vezes nos arriscarmos a viver uma vida dupla, onde o sim e o não trocam de lugar frequentemente. Porém, uma só é a verdade. A verdade é Cristo! (cf. Jo 14,6). Portanto, o nosso chamado é único e irrevogável (cf. Rm 11,29).

Foto: ADORA Comunicação Católica

 

Certa vez, ao terminar uma formação destinada aos jovens, um deles veio ao meu encontro e fez algumas perguntas: “como o senhor tem tanta certeza?” “E se sua vontade mudar?” Respondi que esta decisão não foi tomada tendo como base a minha vontade, mas a vontade de Deus, e esta não muda, e que o tamanho da minha certeza está entrelaçada à minha fé em Deus. Sendo assim, é falso o pensamento que supõe em algum aspecto que a vocação muda em um determinado momento. Na verdade, ou nunca foi ou sempre foi.

Devemos levar a sério o chamado que recebemos e a resposta que damos, pois muitos são os perigos deste caminho. Devemos viver de forma digna para com este chamado que Deus nos faz (cf. Ef 4,1). Ao darmos uma resposta a esta vocação, fazemos uma escolha, considerando todo o resto como perda. Na medida que não valorizarmos a nossa vocação, surgirá o sentimento da falta de todas as outras coisas que um dia deixamos para trás. Na medida que diminui o nosso esforço para confirmar o nosso chamado, diminuirá a nossa fé de que um dia fomos chamados (cf. 2Pd 1,10).

Deus nos escolhe por amor e age sempre para o nosso bem (cf. Rm 8,28). Por isso, o sentido da nossa vida, a nossa felicidade, está ligada à nossa vocação e à resposta que damos ao nosso chamado. Jesus olha para nós e nos chama de amigos. Ser amigo de Cristo é uma relação na qual somos amados e devemos amar, e amar verdadeiramente, com compromisso. Jesus diz para o jovem que lhe falta apenas uma coisa: vender tudo o que tem, doar aos pobres e segui-lo (cf. Mc 10,21-22). O jovem não saiu triste simplesmente pelo fato de possuir muitas coisas, mas porque não era capaz de tamanho sacrifício. Aqui, o grande dilema não é doar ou não doar aos pobres, mas provar o amor dele por Deus com renúncias. O próprio Cristo já nos ensina isto ao dizer que não existe amor maior que dar a vida pelos amigos (cf. Jo 15,13). Portanto, o sacrifício é a prova de um amor verdadeiro. Porém, o que pode acontecer, é que repletos de “respeito humano”, tentamos preservar a nossa vida, dizendo muitas vezes que atos como estes não são necessários, esquecendo que se com Ele sofremos com Ele reinaremos (cf. 2Tm 2,12). Esse é o nosso ‘fardo’: a obediência. Devemos fazer a sua vontade, imolando a nossa liberdade. Porém, este fardo é suave, pois não é tão custoso para aquele que ama, fazer a vontade do amado.

Contemplemos a cena na qual Jesus pergunta para Pedro se ele o amava (cf Jo 21, 15-19). Imaginemos Pedro, que não há muito negou a Jesus, sendo interpelado: “tu me amas?” Jesus sabia o que Pedro tinha feito, mas também conhecia a vocação que Pedro deveria viver. A cada pergunta, Pedro vai tomando consciência do tamanho da responsabilidade de dizer: “sim Senhor, tu sabes que eu te amo”. O amor é exigente, ele não se satisfaz com o pouco. Este pouco não tem nada a ver com quantidade de coisas, mas tem a ver com a entrega. Como podemos ver naquele relato da viúva que faz a doação de tão pouco. Aquilo era tudo que ela tinha para viver (cf. Mc 12, 41-44), reconhecendo que o amor de Deus valia mais que sua vida (cf. Sl 62,4). Por fim, a última e terceira vez o Mestre pergunta: “Simão, filho de João, você me ama?”. Pedro ficou triste. Naquele momento muitas coisas devem ter passado em sua mente. Certamente se questionou se ele conseguiria ser coerente para com esse amor. A tudo isso ele responde: “Senhor, tu conheces tudo, e sabes que eu te amo”.

Jesus ao nos chamar faz esta mesma pergunta: “tu me amas?”.  Diante dessa proposição devemos reconhecer nossas fraquezas e limitações. Devemos confiar nele, ter fé naquele que nos chama. Antes do ato de amor vem o ato de fé. Devemos acreditar que o Senhor nunca erra, e se nos chamou, não poderia ser diferente. Independentemente do que aconteça, este é o nosso caminho, é a nossa vida, é a nossa verdade, é Jesus. Mesmo que a missão seja grande e árdua, “apascentar as ovelhas”, esta não depende de nossas forças, mas é na força dele que devemos confiar, pois sem Jesus nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Após este ato de humildade e fé, podemos, diante do nosso Senhor Jesus, responder: “sim, eu te amo, e que seja feita a vossa vontade”.

SILVA, Deivid Ferreira da. Vocação: uma resposta de amor. Revista A Ponte Ed. 02/2019.

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