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Maria, Dona da Obra

Espiritualidade

Padre Joandeson Souza, Psdp.

Partindo do pressuposto descrito na Sagrada Escritura, acerca da Virgem Maria, que parece ser pouco, é possível dizer que Maria é um real modelo de obediência, serviço e testemunho. Não só para a Igreja, mas também para todos os homens, sobretudo, o fiel católico.

 Maria no seio da Obra Calabriana

A devoção à Santíssima Virgem no seio da Congregação Pobres Servos da Divina Providência é algo profundo e latente. São João Calábria incutia desde o início aos seus irmãos da Obra a vivida dinâmica da espiritualidade mariana: “Tenho muita confiança de que Maria, movida de compaixão por tantas misérias, Ela que é a Mãe da Misericórdia, nos obtenha primeiro de tudo a reforma da nossa vida, e depois a tão suspirada paz”[1].

A grandeza deste reconhecimento é fruto da herança de sua mãe, a senhora Ângela Foschio, com a qual o Padre Calábria aprendeu não somente, a confiar na Divina Providência, mas também a expressar já no período de sua infância esse amor incondicional pela Virgem Mãe. “Sabeis quem é Nossa Senhora? Depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a mais poderosa advogada que possuímos lá no céu, é o nosso conforto, a nossa valia neste vale de lágrimas. Permiti-me que vos diga, de todo o coração: amai, amai, amai Nossa Senhora”[2]. Desta forma, assim como Jesus Cristo é reconhecido como o divino fundador, o Padre Calábria reconhecia Maria como a Dona da Obra e ao mesmo tempo, meio e exemplo para a busca da santificação.

Maria foi uma mulher que confiou plenamente na vontade de Deus. No projeto de anunciação (cf. Lc 1, 26-38) vemos não somente o mistério de Jesus Cristo, mas a vocação de Maria que está a serviço deste mistério. Sua resposta dar-se-á por meio de sua fé e humildade com a qual acolhe a mensagem revelada. “Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45).

Os influxos do Espírito Santo, fonte de vida cobrem-na com sua sombra ao conceber o verbo de Deus em seu ventre tornando-a “[...] vínculo inaudito que une Jesus a Deus, seu Pai [...]”.[3] É nesta disposição que São João Calábria nos recorda que assim como Maria cumpriu fielmente a vontade do Pai, o Pobre Servo deve fazer o mesmo, pois ela sentirá magistral alegria quando parecemos com o seu Filho retribuindo manifestações de amor e graça.

Desta forma, todos nós membros da Família Calabriana somos convidados a incutir em nossa vida uma especial devoção à Virgem Mãe. Não somente na busca pela santidade de vida, mas pelas ações litúrgicas que devem brotar na profundidade do coração para que não se tornem um simples ecoar de trombeta.

Nesta ótica, a família Calabriana é convidada assim como Maria, a seguir os preceitos e exemplos de Jesus “[...] Fazei tudo o que ele vos disser” (cf. Jo 2,5) é o ensinamento deixado por ela como manifestação de um verdadeiro amor e olhar de preocupação. “Daí é que deve brotar nossa admiração e veneração, bem como a nossa filial afeição para com aquela que, sendo a Mãe de Jesus, é ao mesmo tempo a nossa Mãe. Não nos cansemos em multiplicar nossas humildes homenagens, no intuito de demonstrar-lhe nosso amor e nossa devoção, como bons filhos, para a melhor de todas as mães”[4].

A espiritualidade calabriana assim como a Vida Religiosa Consagrada, reconhece Maria como a Mãe de Deus e a toma como modelo primaz no seguimento radical a pessoa de Jesus Cristo seja na ótica do chamado vocacional, na forma de viver com Ele, como Ele e até mesmo, no âmbito da missão. Tais consequências desse seguimento devem imprimir na vida de todos os membros da família calabriana (Sacerdotes, Irmãos, Irmãs, Irmãos externos e fiéis leigos) o modo de ser e de agir do Mestre, ou seja, “[...] imitá-lo, assumir o mesmo caminho que ele escolheu para si mesmo para viver sua consagração e sua missão, e continuar esse Cristo profeticamente na história [...]”[5]. Neste sentido, pelo gênero de sua vida virginal e pobre, Maria se consagrou ao Senhor como sua serva unindo-se ao seu Filho pela grandeza da fé, esperança e caridade com o firme propósito de salvar as almas. Não obstante, a família Calabriana externará seu olhar a ela de maneira a enxergá-la como o perficiente modelo de consagração e voltando-se a ela com especial devoção colhe graças de sua materna intercessão.

“Todos os religiosos difundam portanto, no mundo inteiro, a Boa Nova de Cristo, pela integridade da sua fé, pela caridade para com Deus e para com o Próximo, pelo amor à cruz e esperança da glória futura, afim de que o seu testemunho seja visível a todos e seja glorificado o nosso Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16). Assim, por intercessão da dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, ‘cuja vida é para todos ensinamentos’, desenvolver-se-ão cada dia mais e mais, e darão frutos de salvação abundantes”[6].

 Maria, modelo de discipulado

A Congregação Pobres Servos da Divina Providência reconhece Maria como a Mãe de Deus e da Igreja, e não somente isso, mas como aquela que se coloca a serviço tornando-se assim modelo para toda a vida cristã uma vez que ela está intimamente unida ao seu Filho Jesus Cristo no que concerne ao plano universal de salvação e na piedade popular. Por isso, toda a família calabriana é convidada a honrá-la lembrando-a como a Dona da Obra. “Para Ela irá toda a nossa ternura filial, a humilde invocação e o esforço da imitação concreta das suas virtudes, principalmente na sua disponibilidade alegre e total à amorosa vontade do Pai”.[7]

São João Calábria também nos recorda que nos momentos de cruzes e desolação aonde muitos podem se achar sem rumo ou direção Maria tornar-se um exemplo de confiança e até mesmo de esperança. A sua ligação com Jesus Cristo está sob um elo tão íntimo que ela participa na Obra da redenção sendo reconhecida como a cooperadora. “Não pode existir momento de nosso ministério de salvação ou de renovação, que não esteja no íntimo unido a esta grande Mãe”[8].

No momento de sua noite escura, isto é, de sua purificação interior São João Calábria manifesta uma resposta de amor com a sua vida tornando-a uma realidade teológica. “Aos pés do seu crucifixo, aos pés do Calvário, jurou viver e morrer de amor para Ele”[9].

Nos seus últimos momentos de vida São João Calábria fortaleceu ainda mais sua devoção à Virgem Maria e isso constatamos nos seus últimos escritos. A base de sua devoção parte da Sagrada Escritura e dos grandes dogmas reconhecidos pela Igreja levando-o a assumir uma forma de graça pessoal em sua vida.

“A devoção particular de Pe. Calábria para com a Imaculada deve ser entendida pela atração que exercia sobre ele uma vida completamente sem pecado, toda orientada à vontade de Deus e vivida no escondimento. A devoção de Pe. Calábria a Nossa Senhora tem origem na espiritualidade carmelita e monfortana. A influência carmelita de Pe. Natal [seu diretor espiritual] fez com que ele tomasse o escapulário do Carmo e com alegria celebrasse com seu padre espiritual [Padre Calábria] a solenidade de 16 de julho [Nossa Senhora do Carmo]. Mas por sua vez, o Pe. Calábria influenciou a espiritualidade mariana de Pe. Natal. Em 1931, convenceu-o a pronunciar junto com ele o ato de consagração à Maria, sugerido por Luis Maria Grignion de Monfort, como aparece nesta Carta: ‘Agradeço muito a misericórdia do Senhor que amanhã me concederá fazer a minha consagração como escravo de Nossa Senhora; está é uma graça do próprio Jesus; através de Maria eu espero encontrar tudo e reparar tudo. Ela será a porta que vai me introduzir a Jesus. Oh, como me alegro, porque o Senhor também fara comigo essa consagração, com certeza vou escrevê-la e envio-lhe as medalhas com o pequeno catecismo; há indulgência plenária’”.[10]

No seio destas disposições legais é possível vermos a grandeza do incondicional amor que o Padre Calábria manifesta pela Virgem Maria. Ele a reconhece como a mediadora de todas as graças e pelos seus influxos somos remodelados em Jesus. Na vida da família calabriana Maria não somente é reconhecida como já salientado a Dona da Obra, mas expressando a total devoção que ela merece colhemos os mais belos e preciosos frutos, pois ela é também a auxiliadora de todos os cristãos, o refúgio dos pecadores e a consoladora dos aflitos.

Por isso, o Padre Calábria sempre exprimirá a toda família religiosa que em qualquer dia dedicado a Virgem Maria seja celebrado com todo ardor e zelo nas casas da Obra com o propósito de colher as dádivas pelas efusões das graças e dos dons do Espírito Santo assim como ela obteve junto com os apóstolos.

Maria, a intercessora

Pela via da oração mariana São João Calábria exortava que é possível obter os amparos seja de natureza espiritual ou material dos quais precisamos. Ela torna-se a advogada até mesmo contra os inimigos espirituais, a protetora contra os perigos, a Mãe do socorro em nossas necessidades. Por isso, a virgem Maria torna-se um reflexo para a Igreja.

Ela é intercessora porque recebeu por parte de Deus uma chamado (cf. Lc 1,30); mulher do silêncio (cf. Lc 2,19) que não se faz ausente das realidades presentes, mas está sempre atenta as coisas de seu Deus e dos homens (cf. Jo 2,1); mostra-se sempre aberta para as situações que por vezes não estão manifestas (cf. Jo 2,3); comunica-se com o seu Filho, não teme um não de Deus mesmo que seja de forma aparente, mas que aponta para um sim (cf. Jo 2,4). Ela espera o tempo de Deus; está sempre obediente a Sua vontade, coloca-se diante Dele levando tudo ao Seu coração; mantêm-se de pé até nas circunstâncias de dor (cf. Jo 19,25); é a mulher que vive a esperança alimentada pela grandeza de sua fé e por fim, ela é a senhora da oração (cf. At 1,14) que habita como Igreja, pois junto com os Apóstolos recebe os dons do Espírito Santo.

Portanto, a espiritualidade mariana enraizada na vida da nossa Congregação é um convite para estar atento aos sinais dos tempos do mundo de hoje e de modo simultâneo, a encarar os seus desafios. O Padre Calábria, à luz de seu tempo, sempre externou sua preocupação com o mundo e por meio de suas palavras encorajava toda a família calabriana com um grande sopro profético a ter um árduo espírito de fé nas missões que a Obra realiza. Ou seja, o Pobre Servo é convidado a ser um sinal profético da paternidade de Deus na luz da conjuntura atual por meio do seu estilo de vida, da confiança filial, do abandono à Providência e a ir aonde ninguém deseja uma vez que o mundo todo é de Deus.

Maria, Mãe de Jesus, é aquela que intercede nesta rica caminhada da Família Religiosa. O Pobre Servo, com a sua espiritualidade, é convidado a exultar com singular alegria. Toma-la como modelo de vida e virtude não só porque ela foi a primeira vocacionada fruto do sim dado a Deus, mas porque com sua magistral doçura e candura acolhe a todos como filhos para que a mancha do pecado não o corrompa.

            “Meus queridos irmãos, conservem zelosamente estas minhas pobres palavras. Procurem fazer com que em cada Casa, em cada viveiro da divina Providência floresça, com o espírito puro e genuíno da Obra, uma mais consciente e terna devoção a Maria. A nossa devoção não tenha como base um sentimentalismo estéril, mas seja profundamente enraizada no dogma. Procure-se conhecer melhor as inefáveis relações desta ‘humilde e alta’ Criatura com a Santíssima Trindade, os seus privilégios, a indivisível participação com o seu divino Filho à grande obra da Redenção. Daqui brote a nossa admiração e veneração, o nosso apego filial Àquela que, sendo a Mãe de Jesus, é também nossa Mãe. Não nos cansemos de multiplicar os nossos humildes obséquios para demonstrar a nossa devoção, o nosso amor, como bons filhos em relação à ótima dentre todas as mães. Por isso, nunca me cansarei de recomendar-lhes, especialmente..., alguns obséquios especiais a Maria: a reza quotidiana do Rosário inteiro, distinguir com algum gesto especial de homenagem o dia de sábado, celebrar com um empenho particular as festas marianas, rezar frequentemente o Pequeno Ofício (todo ou em parte), etc”[11].

 

 

[1] CALÁBRIA, João. Meus irmãos muito amados: carta aos religiosos. Centro de Espiritualidade e Cultura Calabriana – CECA: Porto Alegre, 2006, p. 192.

[2] CALÁBRIA, João. Retornemos ao Evangelho. Gráfica Calábria: Porto Alegre, 1999, p. 43.

[3] GEORGE. A. Leitura do Evangelho Segundo Lucas. 3º edição. São Paulo: Paulinas, 1982, p.19.

[4] CALÁBRIA, João. Retornemos ao Evangelho. Gráfica Calábria: Porto Alegre, 1999, p. 55.

[5] KEARNS, Lourenço. A teologia da Vida Consagrada. 4ºed. São Paulo: Editora Santuário, 1999 – (coleção cautro; 4). p. 59.

[6] CONCILIO VATICANO II. Decreto Perfectae Caritatis. In:  COSTA, Lourenço (Org. Geral). Documento do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997, n. 25.

[7] CONGREGAÇÃO POBRES SERVOS DA DIVINA PROVIDÊNCIA. Constituição e Diretório. Editoração e Impressão Gráfica Calábria: Porto Alegre, 2000, n. 65.

[8] CALÁBRIA. Apostolica Vivendi Forma. São Paulo: Paulinas, 1965, p. 19.

[9] SQUIZZATO, Luciano. Aceito ser crucificado com Cristo: O voto de Vitima e a noite escura de Padre Calábria. Centro de Espiritualidade e Cultura Calabriana – CECCA: Porto Alegre – RS. 2010, p.11.

[10] Ibidem, p. 94

[11] CALABRIA, João. Meus irmãos muito amados: carta aos religiosos. Centro de Espiritualidade e Cultura Calabriana – CECCA: Porto Alegre, 2006, p. 458-459.

 

REVISTA A PONTE, ANO XLVII - ABR / MAI / JUN 2020.