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Recém-nascido... envolto em faixas... numa manjedoura

Espiritualidade

Dicas do céu para orientar as buscas pelo Deus menino.

 Texto de Padre Valdecir Tressoldi, Psdp

Uma vez mais temos a possibilidade de celebrar a festa do nascimento de Jesus de Nazaré. Celebrar o Natal de Jesus significa aprofundar a arte do encontro entre o divino e o humano, entre o céu e a terra, o abraço das “coisas de Deus” misturadas com as “coisas do humano”. Como faz bem e dá o que pensar o fato paradoxal de um Deus que, por amor, decide mergulhar na história e “planta a sua tenda entre as tendas dos seres humanos” (cfr. Jo 1,14). Como faz bem e enche o coração de estupor e alegria poder contemplar o rosto de um Deus que se apresenta sem amedrontar a criatura amada e sem roubar espaços que a sua ternura inventou e doou a cada um de nós.

Nesta perspectiva, o Natal é sempre uma boa ocasião para revermos os horizontes que iluminam nossas buscas e o modo como estamos caminhando pelas estradas da vida. O Natal também é uma ótima oportunidade para refletirmos sobre a imagem de Deus que carregamos em nosso mundo interior. Escutar com atenção os antigos textos que oferecem sempre novidades de luz e vida é fundamental para podermos celebrar o Natal de um jeito novo e com atitudes novas. O Evangelho de Lucas narra alguns eventos que marcaram aquela noite, igual a todas as noites, mas que revela novidades desconcertantes (cf. Lc 2,1-20). Por isso, para orientar a nossa procura pelo Deus feito criança, é fundamental prestarmos atenção e seguir à risca as dicas do céu, o mapa orientador que o anjo forneceu aos pastores durante o anúncio do nascimento do Salvador. As indicações do céu são muito simples, tem sabor de humanidade, mas tem luz suficiente para ajudar-nos a chegar até Belém. "O anjo disse-lhes: ‘Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura’ (Lc 2,10-12).

RECÉM-NASCIDO

Este é "o" sinal: Deus se faz pequeno para nós! O Divino oleiro, que no início modelou o ser humano com argila do solo, torna-se argila, pequeno vaso, frágil e belo. Ele não vem com força e poder, mas como uma “criança necessitada" do nosso amor! A ternura da Trindade assume os contornos de um recém-nascido e humildemente se coloca em nossas mãos. Um recém-nascido é frágil e necessita de tantos cuidados para poder sobreviver; e recém-nascido lembra toda uma vida pela frente, mas no momento, esta mesma vida precisa ser protegida e defendida. Nós que andávamos iludidos e apaixonados pela ideia de um Deus onipotente, amante do poder e dos shows de divindade, somos convidados a contemplar um Deus que se faz criança e sussurra um pedido inédito para os nossos ouvidos e coração: “por favor, você pode cuidar de mim? Eu preciso da tua ternura amorosa para crescer em sabedoria e graça”.

A grande revolução que o Natal introduz na história é ligada ao fato que a nossa fragilidade, os nossos limites e o tecido humano tornam-se a nova morada de Deus. Um recém-nascido está precisando de uma casa feita de desejo, argila e perfume de humanidade. Acho que você já entendeu o que estou tentando dizer: Deus se fez pequeno para que você e eu pudéssemos acolhê-lo em nosso coração!  Celebrar o Natal significa tornar-se casa acolhedora da frágil vida que acabou de nascer, mas que é o Salvador do mundo, o teu Salvador.

ENVOLTO EM FAIXAS

O "Filho do Altíssimo", o "Filho de Deus" (Lc 1,32.35), agora que se tornou "filho de Maria" (Lc 2,7), assume a condição humana marcada pela limitação e incompletude; uma condição que precisa dos cuidados da mãe e do pai para crescer; uma condição, destinada a terminar com o epílogo da morte. Em uma palavra: a "glória do Senhor", que pertence ao Filho de Deus, esconde-se na pobreza dos "panos"; lá, e em nenhum outro lugar, é necessário procurá-lo e reconhecê-lo. Em torno dele, não há aura de "glória" ou "esplendor". Como Deus, está vestido de luz (Sl 104,2), agora, como filho do homem, está coberto por panos, como qualquer outra criança frágil e indefesa. "O Senhor da glória está envolto em faixas".

Os panos com que Maria veste o filho após o parto falam do cuidado maternal que ela, juntamente com José, ofereceu a Jesus. O anjo aponta o segundo sinal aos pastores, dizendo: “Vocês encontrarão um Menino envolto em faixas, deitado numa manjedoura” (v. 12). Mas no versículo 16, quando os pastores vão verificar o sinal que lhes fora oferecido, Lucas escreve que eles "...encontraram Maria, José e o Menino, que estava deitado na manjedoura". Notamos que existe uma substancial diferença entre o que diz o anjo e o que encontram os pastores. No v. 12, o sinal anunciado é composto por três elementos: o Menino, envolto em faixas, a manjedoura; no v. 16, porém, a verificação do sinal menciona: Maria e José, o Menino, a manjedoura... as faixas não são mais lembradas; em seu lugar, Lucas apresenta: Maria e José. O sinal, envolto em faixas, indicado pelo anjo, foi personalizado por Maria e José. Maria e José envolvem com as faixas da ternura, do cuidado e do amor materno-paterno o recém-nascido. Celebrar o Natal significaenvolver com as faixas da ternura” o Deus menino que precisa da minha acolhida e do meu cuidado amoroso.

NUMA MANJEDOURA

O recém-nascido envolto em faixas é posto numa manjedoura e este é o terceiro sinal. Lucas, na sua narrativa, sublinha por três vezes a manjedoura como lugar onde o menino foi colocado: a insistência tem um forte significado simbólico. O primeiro significado é ligado à forma da manjedoura, que lembra muito um sepulcro. Insistir que o recém-nascido envolto em faixas repousa na manjedoura significa dizer que o Deus Menino vai viver uma páscoa inédita. As faixas indicadas aos pastores para reconhecer o Deus Menino aparecem também nas narrativas da ressurreição e ajudam Pedro e João a reconhecer que Jesus ressuscitou (Jo 20,4-8). O segundo significado está ligado ao conteúdo da manjedoura, que é o alimento para os animais. A mensagem é clara: em Belém, que significa Casa do Pão, numa manjedoura repousa um recém-nascido envolto em faixas e que um dia dirá: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente" (Jo 6,51). Celebrar o Natal significa acolher o recém-nascido envolvido em faixas e que deseja repousar na manjedoura do nosso coração para ser alimento de vida eterna.

Na celebração do Natal, a Palavra é uma criança que não fala; o Eterno é um recém-nascido; e como todo recém-nascido, Jesus só viverá se alguém cuidar dele. Deus se coloca em suas mãos, ele viverá se você o amar. Você pode ser o berço ou o túmulo de Deus. Neste Natal precisamos tomar uma decisão. Que tal irmos com os pastores até Belém para acolhermos o Salvador recém-nascido, envolto em faixas e que repousa numa manjedoura?

 

[Revista A Ponte, vol IV, p. 22, 2020]