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Renovar a esperança em Cristo que nasce no meio de nós

A humanidade está passando por tempos difíceis, incertos, confusos. Mas pode ser uma oportunidade de serem transformados em tempos novos, se as pessoas estiverem dispostas, de fato, a serem criaturas novas, em Cristo, renovando assim sua esperança sustentada pela confiança na presença do Divino, o Emanuel, Deus conosco.

Mas, o que é esperança? Conforme o dicionário é a confiança de que algo bom e muito desejado acontecerá, a de que um desejo se torne realidade; disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há de realizar ou suceder. Esperança na ordem natural indica uma paixão, um sentimento de que tudo vai dar certo. É um jeito da sensibilidade que tende a um bem não obstante as dificuldades para conquistá-la.

Segundo Paulo Freire “é preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar: porque tem gente que tem Esperança do verbo esperar. A esperança do verbo esperar, não é esperança, é espera. Esperança é se levantar, esperar é ir atrás. Esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é juntar-se com os outros para fazer de outro modo. É não desistir, é ter fé na vida”.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, esperança é uma “virtude teologal (dom de Deus) que nos faz desejar como nossa felicidade o Reino dos Céus e a vida eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo, apoiando-nos não em nossas forças mas no socorro da graça do Espírito Santo” (cf. CIC 1817). É uma virtude teologal porque tem como fim Deus, que nos permite viver unidos em Deus, viver uma vida cristã de filhos, e por isso, chamados a percorrer um caminho novo que é a vida nova em Cristo, ampliando, continuamente espaços à sua Paternidade. É a virtude que sustenta a alma, que conforta o ser humano e que o permite prosseguir, independentemente das dificuldades presentes durante o trajeto.

Todo o cristão encontra em Cristo a sua esperança. Na verdade, sem Ele não há esperança, porque “Cristo Jesus é a nossa esperança” (I Tim 1,1), aquele que dá sentido às coisas e ilumina todas e as realidades. Por isso, para o cristão a esperança não é uma ideia mas é uma pessoa, a pessoa de Jesus, o tudo que uma pessoa precisa para ressignificar o presente e alcançar o futuro. É uma pessoa confiável, que estará sempre, não só hoje, mas também no futuro e quando a tenho próxima me oferece paz, serenidade, felicidade; é capaz de me lançar, corajosamente, no futuro. Diante do provérbio que “a esperança é a última a morrer”, isto é, a última possibilidade que tenho, a qual pode me levar a acreditar em outras seguranças. Dizem que é preciso afirmar que a esperança é a primeira a ressurgir.

Para renovar a esperança é aconselhável aproximar a ela as virtudes da coragem e da gratidão. Coragem porque impulsiona a agir com o coração, colocando tudo de si mesmo em todas as coisas. Quando uma pessoa se projeta no futuro precisa coragem para lançar o coração além dos obstáculos sabendo que, do outro lado, há alguém que lhe espera. Faz-se necessário também, a virtude da gratidão. É olhar para trás, fazer as pazes com o passado. Olhar não só para Deus mas para todas as pessoas que estiveram próximas, e ser grato. Renovo minha esperança em Cristo se reconheço a sua presença no meu passado, se reconheço o bem, as pessoas que me amaram e, assim, acolho o Cristo que nasce no meu presente e abraço a coragem de lançar-me no futuro, com Ele. Vivo o presente, reconciliado com o passado e confio amorosamente no futuro.

O Advento, tempo do ano litúrgico que significa vinda, chegada e que tem como sentido avivar nos corações à espera do Senhor, além de ser um período de espera é também de esperança, terminologias estas que estão interligadas e colocadas em relação ao nascimento de Jesus. A esperança cristã, esta espera vigilante, tem Jesus Cristo como realidade última. A este respeito nos escreve São Paulo que “temos colocado a nossa esperança no Deus vivo” (I Tm 4,10). Portanto, nós renovamos a nossa esperança em um Deus que se faz presente na história da humanidade, e na história pessoal de cada um, para garantir a eficácia de nossos propósitos e desejos, para confirmar o seu amor e para renovar a nossa vida, nosso jeito de ser, de nos organizar, de optar, de cuidar de si e do outro com compaixão, de interpretar os fatos, de viver o sentido da fraternidade, da solidariedade, de trabalhar com esperança, de sermos mais integrados a partir de dentro, abertos a novos encontros e de sermos melhores por meio da presença fiel e eficaz de seu Filho.

Portanto, todo aquele que vive a esperança, a torna visível, lhe oferece um lugar e dá sentido à todas as relações, reconhecendo, assim, o outro como irmão. Recebe, por consequência, a capacidade de superação de muitos problemas, preconceitos, desigualdades, conflitos, pois ela o possibilita de caminhar na estrada da vida com mais consciência e de se tornar uma pessoa mais integrada acolhendo Cristo em si mesmo e em todas as criaturas.

Neste sentido, renovar a esperança em Jesus Cristo que nasce, vindo ao encontro do ser humano com total entrega e liberdade, é viver na lógica de que é possível conviver com todas as pessoas e amá-las, mesmo as que, aparentemente não nos dão tantos motivos para que as amemos. Somos convidados a viver na alegria e na serenidade também nas provações, na dor do sofrimento, inclusive nos tempos difíceis e sombrios.

As circunstâncias da pandemia, devido ao novo coronavírus, oferecem à humanidade triste, preocupada, temerosa, incerta e doente, quase desvanecendo a esperança, uma oportunidade ímpar de renovar a esperança no Deus vivo “dom do céu que não conseguiríamos obter sozinhos” (Papa Francisco). Porque é um dom, é possível construir caminhos juntos, dar pão ao que tem fome, água a quem tem sede, visitar o doente (cf. Mt 25,31-46). Este modo de agir carrega os traços da confiança, fundamento da esperança, a qual jamais decepciona e permite ser Evangelho Vivo, praticando o que Jesus ensinou. Desta forma o ser humano concretiza o seu potencial de fazer algo para o outro, qualifica experiências que dão sentido à sua vida e renova continuamente a sua esperança. 

Irmã Loris Trevisol, PSDP

Diretora Operacional do Centro Social Mãe da Providência.

 

 

 

[Revista A Ponte. Vol. IV, p. 11, 2020]