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Quando a peste passar

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse que devastam e destroem corpos e cidades são a guerra, a peste, a fome e a morte. E nós, tão modernos, que podemos ter considerado essas figuras como sendo apenas simbologias bíblicas ou medievais e de muito mau gosto, fomos surpreendidos agora pelo mais sorrateiro dos quatro cavaleiros, a peste. A palavra é realmente de mau gosto, parece mais moderno e científico chamá-la de epidemia – etimologicamente “o que cai sobre o povo”. No caso, pandemia, doença altamente contagiosa e letal assaltando “todo o povo”, provocada por um vírus só visível em microscópio na forma de coroa – o vírus corona – que infectou todos os rincões do planeta terra, a mais completa globalização que jamais houve na história deste mundo, escondendo atrás da máscara todos os sorrisos em todos os continentes e ilhas mais remotas. É o mais recente da série corona, e com o seu contágio morre-se mais prontamente. Obrigou ao distanciamento e ao isolamento, o que paralisou a economia e provocou uma crise econômica ainda incalculável, cujas consequências últimas é o agigantamento do cavaleiro seguinte, a fome, que provoca mais morte. Os quatro cavaleiros marcham e ceifam unidos por toda a face da terra.

Podemos dar-lhes nomes mais científicos: vírus, crise, óbitos, mas são os quatro de sempre. É algo exagerado, um apocalipse de dimensões impensáveis? Eles estão aí à nossa porta, falta desvendar melhor o que provocou o começo de sua marcha para diagnosticar melhor e encontrar algum remédio. E quem sabe festejar: “Peste, nunca mais!”

Neste tempo de ciência e secularização, ninguém está seriamente atribuindo a Deus, a um castigo divino, esse aparecimento atualizado da peste. Mas é contágio, deve vir de algum lugar, de alguém – de outro, do lugar do outo. A busca pela origem maligna inclina impenitentemente a culpar “o outro”. Os soldados americanos levaram da região da Pensilvânia para a Europa, já no final da primeira grande guerra mundial, a “gripe espanhola” – e os espanhóis, que não tinham entrado na guerra, levaram a culpa. Nos anos cinquenta, depois da segunda guerra, com seus resíduos de guerra fria na Ásia – Coreia, Vietnam, Camboja - veio cavalgando para o Ocidente a “gripe asiática” – eles, os colonizados, levaram a culpa. De lá, de novo, na movimentação pós-comunista, desde a década de noventa, nos vem a “gripe aviária”, a “gripe suína”. E agora a gripe vem dos morcegos chineses – sempre o outro é o pretenso culpado. Enquanto isso, da África profunda e maltratada há quem prove a vinda do HIV, responsável pela Aids, e o vírus ebola – a peste vem do outro, o culpado!

Mas dá para reparar em todos estes casos sem exceção, que a guerra – o primeiro dos quatro cavaleiros – com a movimentação militar e colonial - cavalgou primeiro e levou na bagagem esta arma invisível e mortal. Estamos agora metidos numa forma nova de guerra, uma guerra de quarta geração, que superou as três outras modalidades modernas, a de campo, a de trincheira e a de tomada de cidades, e que envolve tecnologia, mercado, bolsas de valores, inteligência artificial, cultura e inclusive religião, de forma praticamente continuada e total, uma guerra ecológica. Esta é uma guerra longamente gestada por dentro das anteriores. O vírus acaba de fazer uma revelação tremenda, ainda pouco avaliada: desde a era industrial do século XIX, a peste anda de mãos dadas com uma guerra generalizada contra as demais criaturas que compõem e que habitam ecologicamente este planeta. “A guerra é a verdade do ser” filosofava o pré-socrático Heráclito. Agora colhemos a verdade do “antropoceno”, essa época em que o ser humano adquiriu imenso poder de exploração, de apropriação e transformação do mundo seguindo o critério da destruição criativa, da crença de que vale a pena destruir uma vez que se tem capacidade de construir melhor. E assim passamos da conta. O planeta – um ser vivo e a única casa que temos como humanidade – apresenta muitos sintomas de doença. Os microrganismos sempre estiveram por aí, antes de nós, antes dos animais e das plantas. Agora cada vez mais intensamente em tempos modernos, dão sinal de desequilíbrio ecológico, desequilíbrio de relações vitais, ou seja, enfermidade viral, que se transforma em peste, pandemia. Afinal, nosso prato exige a criação artificial e a morte de milhões de animais por dia, e os animais em geral são obrigados a viver cada vez mais perto uns dos outros e de nós por migrarem de seus ambientes destruídos. Os microrganismos, que não apareciam, são os primeiros afetados, e agora mostram sua força capaz de desencadear o caos e a morte. Eles se dirigem a nós: de anjos cuidadores da terra, nos tornamos o satã da terra, um poder destrutivo, que precisa ser destruído em favor de uma terra saudável para as demais espécies. Os cavaleiros do apocalipse marcham em nossa direção.

O que podemos aprender e ainda redimir na iminência de um caos sem volta?

  • Em primeiro lugar, o vírus invisível mas poderoso nos obrigou a “desacelerar”. Tivemos que travar e ficar em casa. É a possibilidade de refletirmos sobre nossas correrias, sobre o tipo de progresso que realmente vale a pena.
  • Em segundo lugar, o vírus tornou visíveis as massas populacionais mais vulneráveis e perigosas: levam mais facilmente adiante o contágio porque não têm como se proteger nem se isolar. Em diversas capitais brasileiras lotaram as entradas de hospitais. Vieram à luz diante de quem não tem olhos para elas. E uma enorme onda de solidariedade, de energia primária em defesa da vida, ou seja, de comida, simbolizada na onda de cestas básicas e “quentinhas”, estabeleceu um novo modelo de “correria”, a da compaixão e da solidariedade, da busca de um mínimo de equilíbrio de relações, começando a tratar justamente o ponto em que a doença está – as relações desequilibradas. Essa forma positiva e saudável de relação pode e deve ser estendida às demais criaturas, com respeito e sobriedade de utilização, com novas formas de cultivo ecológico.
  • Em terceiro lugar, o vírus obrigou ao socorro público daqueles que não conseguem se manter, em contraste com os afortunados que acumulam recursos, bens e dinheiro de forma desvairada – uns precisariam de diversas vidas para usufruir tudo o que acumulam enquanto metade da população da terra está continuamente ameaçada pelos cavaleiros da fome e da morte precoce.
  • Enfim, em quarto lugar, se quisermos ter futuro na terra, o vírus nos ensinou que é necessário renunciar esta guerra total e contínua que desequilibra os povos, as classes, as comunidades humanas, mas agora também toda a ecologia, desde os vírus invisíveis até os grandes animais selvagens ou criados de forma massiva e desastrosa, que causam enormes sofrimentos e novos desequilíbrios. Pacificação, justiça animal e ecológica importam. Como ensinou Teilhard de Chardin há sessenta anos: passou o tempo belicoso das nações em guerra por soberania, é tempo de cuidarmos da terra. Assim, desde o cotidiano, na forma como tratamos a água, os animais e as plantas, a reciclagem do que usamos e do que podemos renunciar, até as empresas transnacionais e os governos, temos o inelutável ajuste de contas aos quatro cavaleiros do apocalipse se não nos ajustarmos à ecologia da vida sobre a terra. A peste vai acalmar, ainda há tempo, mas, como advertiu Jesus, não sabemos nem o dia e nem a hora.

  Frei Luiz Carlos Susin, OFMCap

 

 

[Revista A Ponte. Vol. IV, p. 25, 2020]