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Um ambiente formativo

Formação

A matéria do Setor Formação foi retirado da REVISTA IHU ON-LINE. Trazemos, alguns trechos, do artigo “Um ambiente formativo” apresentando a realidade dos seminaristas nesse período da pandemia. Publicação é parte do Projeto Buscai e Anunciai.

Escrito pela Dra. Luciana Campos, psicóloga pela UFRJ, pedagoga pela UFF, especializada em psicopedagogia pela UFRJ, mestre em educação pela UFF, doutora pela UFRJ e pelo Pe. Douglas Alves Fontes, reitor do Seminário São José da Arquidiocese de Niterói (RJ), mestre e doutor em Teologia Sistemática pela PUC Rio.

A matéria completa pode ser lida clicando aqui.

Um ambiente formativo
"Foi então a Nazaré, onde se tinha criado." (Lc 4,16)

Um dos primeiros desafios, que a pandemia nos apresentou, foi: permanecer com os seminaristas no Seminário ou enviá-los para outro lugar? Este desafio, provavelmente, foi exigente para todos: formandos, formadores e familiares. Na pesquisa, vimos que a maioria foi para a casa de suas famílias (62,2%), e um segundo grande grupo permaneceu nos Seminários (25,6%). O restante se dividiu entre casas paroquiais, conventos, e alternando casa e seminário.

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Formação continuada fora do seminário

"Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré. E Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens."(Lc 2,51s)

Comecemos refletindo sobre como as diferentes dimensões da formação sacerdotal - humano-afetiva, espiritual, comunitária e intelectual - foram trabalhadas neste período.

Um aspecto importante, indicado nos questionários, refere-se a este momento de profunda introspecção, propiciado pelo confinamento, e a questão vocacional. (67,2%) dos rapazes admitiram que repensaram sua vocação, neste período. O que isto significa? Poderemos contemplar este dado como uma fragilidade vocacional, ou como percurso natural, diante de um tempo apartado do cotidiano formativo no interior do Seminário? E teria este quesito ligação com a qualidade da relação com Deus, apontada como ótima, por um quantitativo de apenas (16,4%)? Como o diretor espiritual poderia estar mediando este momento desafiador para os seminaristas? Apenas (30,8%) dos rapazes continuaram contando com o acompanhamento espiritual online, ao passo que (69,2%) ficaram sem esta possibilidade, ressaltando que este é um percentual muito próximo dos que admitiram questionar sua vocação. Estes dados possuem potencial para nos arguir sobre o quanto a mediação de um sacerdote experiente pode impactar um jovem formando em sua caminhada. Talvez, forçosamente, nos perguntemos se antes mesmo da pandemia este acompanhamento ocorria com a frequência e a efetividade necessárias. Por outro lado, quando indagados sobre a presença dos formadores neste período, as respostas são mais animadoras, pois a maioria dos rapazes (89%) foram contatados pelos formadores, para interação social (25,6%) e também para a continuidade do trabalho formativo (74,4%).

É preciso reconhecer que as dificuldades na vida de um vocacionado ao sacerdócio não se resumem ao tempo do Seminário, uma vez que antes, durante e depois, os vocacionados ao presbiterado lidam com inúmeros desafios e dificuldades. Vale lembrar que outras vocações também têm as suas. Porém, a resposta sobre o repensar a vocação também nos faz pensar até que ponto, os seminaristas têm raízes firmes e um alicerce sólido, sobre os quais "edificarão" seus ministérios. De fato, a pandemia é algo totalmente novo e questionador, mas outros desafios ainda virão.

É sempre necessário auxiliar os vocacionados a terem, cada vez mais claro, o motivo pelo qual deixaram suas famílias, ingressaram no Seminário, nele permanecem e dele partirão, para seguir outro caminho ou assumir o ministério sacerdotal. Muitas vezes, o que ocorre é que as motivações vocacionais são superficiais, ilusórias e inconstantes. Contudo, é sempre possível depurar, para chegar no seu essencial, no seu núcleo sólido, mesmo que tantas camadas apareçam cobrindo o núcleo central do chamado vocacional. Caberá, aos formadores, oferecer um auxílio constante e sereno, para que os formandos façam o seu caminho de discernimento!

Já o dado da direção espiritual parece fazer ecoar um dado percebido na vida presbiteral. Infelizmente, é perceptível um hiato, entre a rotina da direção espiritual e a vida sacerdotal. Sem querer minimizar os desafios da pandemia, essa resposta dos seminaristas não estará apontando para o que vemos no presbitério e continuaremos a ver? Por outro lado, o valor da direção espiritual talvez não esteja ainda internalizado e assumido pelos formandos. O que acontece durante a pandemia pode ser o mesmo que acontece no período de férias: a direção espiritual fica em segundo plano.

Francisco Fernandez Carvajal, em sua pequena e profunda obra, A quem pedir conselho?, começa a redação com um provérbio africano, que diz: "Ninguém é juiz em causa própria". Os formandos precisam aprender o valor do abrir o coração, com sinceridade, a um irmão mais velho, no mesmo caminho discipular. Às vezes, a direção será um falar diante do espelho, fazer ecoar o que está dentro de si. Desta maneira, muitas questões vão se apaziguando. Quando um jovem formando deixa a direção, vai permitindo que suas questões cresçam dentro dele e podem, futuramente, causar sérios danos. Contudo, se ele tivesse aberto o coração, na direção, estaria se preservando de tantos problemas futuros. O que acontece é que a direção esquecida será retomada, quando a coisa estiver complicada. Aí, talvez, já seja tarde demais! Dizia um velho e sábio diretor espiritual: "mesmo quando você não tiver nada a dizer na direção, venha, porque eu tenho."

Ao serem questionados sobre as maiores dificuldades, neste momento, as respostas são bem difusas e plurais: dificuldades para manter a rotina de orações (32,5%) aparecem seguidas de dificuldades pela falta de contatos sociais (22,1%), de manutenção da castidade (11,1%), por falta de direção espiritual (10,5%), dificuldades de assistir à missa online(7%), entre outros fatores. Outro desafio no momento, refere-se à perda de entes queridos: (14,6%) perderam algum ente próximo e deste quantitativo, (31,9%) vêm demonstrando dificuldades em elaborar o luto.

Sobre o luto, sabemos o quão desafiador é lidar com ele. Porém, é importante que os seminaristas aprendam cada vez mais a lidar com essa experiência, porque será uma constante na vida ministerial. Não só o próprio seminarista, e o futuro presbítero lidam, com frequência com o luto, mas precisarão auxiliar muitos a lidar com essa experiência. Neste contexto, se faz necessário iluminar o luto com a luz da fé. O presbítero é aquele que se alegra com os que se alegram, e chora com os que choram (Rm 12,14s), muitas vezes, no mesmo dia.

Em relação à rotina das orações, elencada como a maior dificuldade, pode ser a mesma experiência vivida por muitos, nos períodos de férias. É claro que manter uma rotina espiritual dentro de uma casa, com uma família que talvez não valorize tanto o que está tentando ser mantido, é sempre um desafio. Porém, a ausência da estrutura do Seminário pode também revelar uma vida espiritual de fachada, que não se mantém sem a comunidade, sem o sino, a capela e, sobretudo, sem os formadores. Tudo isso precisa ser refletido, para que os formandos reconheçam a importância e a necessidade de uma vida espiritual sólida, disciplinada e bem vivida, como uma realidade necessária para a vida vocacional e não tanto como um dever que parecerá mera obrigação.

Como itens positivos, propiciados pelo momento, destacam-se a possibilidade de aproveitar o contato estreito com a família (29,4%), a descoberta de novas habilidades (23%), o aumento da espiritualidade (22,4%) e da qualidade dos estudos (12,7%), como principais ganhos.

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Um último dado que podemos destacar da pesquisa é o que diz respeito às relações. O presbítero é um homem de relações a exemplo do próprio Jesus, ao qual ele será configurado, não através de um passe de mágica, mas através de uma formação séria e profunda. A exemplo do Mestre, o presbítero sabe que sua vida é marcada por uma tríplice relação: consigo, com Deus e com os outros. Nem sempre a vivência dessa dinâmica relacional é tão simples e, por isso, bem vivida. Os formandos precisam investir nesse campo central da vocação sacerdotal.

Dos seminaristas participantes, (53,5%) responderam que se sentiam bem, na relação com eles mesmos, enquanto (30,6%) disseram que se sentiam regulares, nessa relação. (8,2%) disseram que essa relação estava ruim. Já na relação com Deus, (43,7%) responderam que estavam vivendo uma boa relação, enquanto (32,1%) disseram que era uma relação regular. Na relação social, (45,9%) disseram que viviam uma boa relação e (36,4%) viviam uma relação regular.

Tudo isso nos faz pensar e reconhecer o presbítero e, por isso, os candidatos ao presbiterado como homens de relação. Contudo, essa dinâmica relacional na vida presbiteral precisa partir de uma relação profunda e verdadeira, consigo e com Deus, para que as relações com os outros sejam maduras e responsáveis. Além disso, os formandos e, sobretudo, os presbíteros, precisam ter consciência da necessidade de uma reserva nas relações, de tal maneira que a relação consigo e com Deus seja preservada e bem vivida. A pandemia pode, também, nos fazer pensar esse quadro de relações que, para muitos, é um desafio, por não ter contato direto com o povo. Porém, essa ausência é importante e necessária, para os presbíteros e, por isso, para os seminaristas.

Luzes para o pós-pandemia

"Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rm 8,28)

Todos nós já vimos imagens de flores nascidas em cenários bem curiosos: pedras, troncos cortados, paredes… Cenários onde todos defenderiam o fim da vida e, por isso, o fim da esperança. Contudo, a vida continua desabrochando e nos convidando a acreditar e esperar. A pandemia pede de nós a superação de um otimismo utópico, ou um realismo pessimista, para darmos lugar a um realismo esperançoso. O contexto da pandemia nos motiva a reconhecer que todos podemos sair melhores dessa experiência, que afetou toda a humanidade. A formação sacerdotal não pode estar fora desse palco!

Ao concluirmos este percurso que fizemos, a partir da pesquisa, com 2000 seminaristas do Brasil, queremos destacar algumas luzes que a pandemia nos convida a enxergar e assumir, na continuidade da nossa história como homens e mulheres de fé!

A primeira luz que encontramos é uma experiência de maturidade, que a pandemia está nos pedindo. Um contexto, como este, pede presbíteros maduros e, por consequência, formandos que se empenham por uma maturidade humana e também espiritual. O Doc. 110 (n. 173) nos lembra que o cultivo da vida comunitária faz com que o formando alcance alguns objetivos, dentre eles, "definir-se como cristão adulto, purificando-se nas motivações e transformando a própria conduta, com vista a uma progressiva configuração a Cristo."

Outra luz que a pandemia está nos oferecendo, sobretudo aos formandos, é a possibilidade de uma relação mais profunda conosco, favorecendo o autoconhecimento, de tal maneira que o formando alcance "um satisfatório conhecimento das próprias fraquezas, sempre presentes em sua personalidade, tendo em vista a capacidade de autodeterminação e de uma vivência responsável." (Doc. 110, n. 190b) Contudo, isso só será possível se os formandos superarem a tentação de uma vida exibicionista, que tende ao exterior, à aparência e pouco ao interior.

Neste mesmo caminho, a pandemia ofereceu a todos e, particularmente, aos nossos formandos, um contato muito próximo das famílias. Principalmente, isso ocorreu, como vimos na entrevista, porque a maioria dos seminaristas está passando a pandemia nas casas de suas famílias. Este contato pode ter sido muito proveitoso, para que os formandos consigam "relacionar-se, com sinceridade, com a própria família, sem apegos e dependências, nem rejeições e descompromissos, e sem perder as raízes sociais e culturais." (Doc. 110, 190g)

Ao mesmo tempo em que descobrimos um novo mundo virtual, com a pandemia, muitos podem ter se refugiado nesse mesmo mundo. Para o formando, é sempre importante uma consciência clara sobre si mesmo e sua vocação, para que não se perca no mundo virtual. Uma postura equilibrada pedirá, a cada formando, uma presença evangélica nas redes sociais, e não uma presença como mais um refém do mundo virtual, em detrimento do real. Da mesma forma, os formandos também são chamados a não se omitir nesse novo campo de evangelização, que se descortina diante de nossos olhos. Por isso, é preciso "educar-se no uso adequado e responsável das novas tecnologias e dos meios modernos de comunicação e entretenimento." (Doc. 110, n. 190p)

A pandemia exigiu de todos uma redescoberta e valorização da vida espiritual. Ouvimos tantas pessoas destacando a importância dessa dimensão da vida, para que pudessem viver um pouco melhor esse momento. Para os seminaristas, a pandemia pediu e proporcionou um processo de crescimento espiritual. Contudo, este crescimento só é possível, através de um sincero e permanente esforço de conversão do coração. Ao mesmo tempo, só uma disciplina responsável possibilitará uma vivência profundamente espiritual, mesmo em tempos de crise, como o atual (Doc. 110, n. 211).

O mundo em que estamos pede, cada vez mais, que o presbítero seja perito nas coisas humanas e divinas (Doc. 110, n. 288). A pandemia pediu um constante adaptar-se em inúmeros campos, dentre eles o campo dos estudos. Uma formação intelectual sólida e adequada, para que o futuro presbítero seja capaz de ser um formador de consciência, como pedia Aparecida. Esse novo ambiente mostrou, aos formandos, a necessidade de uma disciplina e um empenho cada vez mais pessoal, para se dedicar com seriedade e profundamente aos estudos.

Todo esse contexto que estamos vendo nos faz pensar que, de fato, toda formação sacerdotal precisa ter claro o destino pastoral do futuro presbítero. Dessa maneira, a pandemia nos colocou diante dos grandes areópagos, para os quais os futuros presbíteros serão enviados. Assim, esse tempo pode proporcionar, aos formandos, novo ardor, novos métodos e novas expressões (Doc. 110, pn. 229)

Por último, podemos pontuar que a pandemia nos fez recordar que "a missão do Seminário é formar presbíteros capazes de dialogar com a realidade plural e atuar, pastoralmente, no meio do povo, valorizando os leigos e leigas em seus diversos carismas, serviços e ministérios." Só assim os formandos poderão conhecer bem a realidade para assumi-la e transformá-la à luz do Evangelho. (Doc. 110, n. 7)

Que esse tempo seja, para todos nós, a oportunidade de nos reinventarmos à luz da presença amorosa de Deus, para sermos capazes de nos tornar sinais credíveis da Sua presença no meio do Seu povo, que é confiado a nós!

Que a pandemia nos cure de tantas doenças que nos impedem de vivermos nossa missão eclesial no coração do mundo! Que assim nos empenhemos, com muito mais ardor, para que a formação sacerdotal possa gerar novos e bons presbíteros, verdadeiros homens de Deus, capazes de se compadecer do nosso povo e ter a consciência de serem servidores à luz do Mestre, que veio para servir e não ser servido (Mt 20,28)!

Que o pós-pandemia não nos encontre como se nada tivesse acontecido; não permita que continuemos da mesma forma, mas nos empenhemos para ser melhores, criativos, valorizando as coisas essenciais, enraizando-nos cada vez mais n'Aquele que nos chamou, nos formou e nos envia à missão! Todo esse caminho só será possível se corrermos, no certame que nos é proposto, "tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé."(Hb 12,2)

"'Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?' O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais." (Homilia do Papa Francisco, Praça de S. Pedro, 27/03/2020)

"Como padres, filhos e membros de um povo sacerdotal, temos que assumir a responsabilidade pelo futuro e projetá-lo como irmãos. Coloquemos nas mãos feridas do Senhor, como uma oferta sagrada, nossa própria fragilidade, a fragilidade de nosso povo, e de toda a humanidade. O Senhor é quem nos transforma, que nos trata como pão, leva a vida nas mãos d'Ele, nos abençoa, nos quebra e nos compartilha, e nos dá ao seu povo." (Carta do Papa Francisco aos sacerdotes da Diocese de Roma, 31/05/2020)

Referências bibliográficas
CNBB. Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil. Doc. 110. Brasília: Edições CNBB, 2019.
CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. RatioFundamentalisInstitutionisSacerdotalis. Brasília: Edições CNBB,2016.
FERNANDEZ-CARVAJAL, Francisco. A quem pedir conselho?. São Paulo: Quadrante, 2000.
FRANCISCO, PP. Vida após a Pandemia. Roma: LibreriaEditrice Vaticana, 2020.
–––––. Amoris Laetitia. São Paulo: Paulinas, 2016.
–––––. Carta del Santo Padre Francisco a los sacerdotes de laDiócesis de Roma.31/05/2020. Disponível aqui. Tradução nossa. Acesso em 05/06/2020.
–––––.Momento Extraordinário de Oração, em tempo de epidemia, presidido pelo Papa Francisco. Adro da Basílica de São Pedro, Sexta-feira, 27 de março de 2020. Disponível aqui. Tradução nossa. Acesso em 05/06/2020.

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